A redução da oferta de leite em Mato Grosso do Sul levou entidades do setor e o governo estadual a lançar um programa de entrega de vacas Girolando de alta genética a pequenos produtores. A estratégia foi anunciada durante a Expogenética 2025, realizada no Parque de Exposições Laucídio Coelho, em Campo Grande, e tem como objetivo reverter o déficit de produção que obrigou laticínios locais a buscar matéria-prima em outras regiões.
A iniciativa reúne a Associação Girolando MS, criadores especializados na raça e a administração estadual. O foco é conectar os dois extremos da cadeia: produtores de genética avançada, que precisam ampliar mercado para seus animais, e pecuaristas familiares, que já produzem leite, mas carecem de investimento para elevar a produtividade. Os beneficiários foram selecionados com base em critérios técnicos, como infraestrutura mínima, experiência comprovada e potencial de expansão de rebanho.
A escolha da raça está relacionada à capacidade de adaptação a clima quente e úmido, típica das regiões tropicais. Dados apresentados pela associação indicam que a vaca vencedora do último torneio leiteiro nacional registrou produção diária de 140 litros. Em sistemas convencionais a pasto, sem suplementação intensiva, exemplares da mesma linhagem atingem médias superiores a 23 litros por dia, volume considerado elevado para esse modelo de manejo.
Os organizadores afirmam que o programa agrega componentes econômicos e ambientais. O esterco gerado pelos animais pode ser convertido em biofertilizante rico em fósforo e nitrogênio, reduzindo a dependência de adubos químicos. Além disso, propriedades com cerca de 400 vacas leiteiras podem produzir biogás suficiente para abastecer tratores e caminhões de uso interno, aproximando o sistema da autossuficiência energética.
Apesar do potencial, o Estado enfrenta hoje falta de matéria-prima. De acordo com a Associação Girolando MS, a produção doméstica não supre o consumo e o transporte de leite cru de outras unidades da federação encarece o processo industrial. A escassez compromete a competitividade das empresas locais, que operam com caminhões abaixo da capacidade ideal e ampliam custos logísticos em períodos de maior demanda.
Com a entrada de novos animais de alto desempenho, a expectativa é ampliar rapidamente o volume disponível para coleta. A distribuição das matrizes ocorrerá em etapas, acompanhada de assistência técnica em nutrição, manejo reprodutivo, sanidade e gestão de propriedade. O programa inclui ainda treinamentos sobre uso de biodigestores, produção de biofertilizante e reaproveitamento de efluentes, alinhando-se a metas de sustentabilidade estabelecidas pelo governo estadual.
Os recursos para compra e transporte das vacas serão compartilhados entre o Tesouro estadual, fundos setoriais e contrapartidas dos criadores de genética. As propriedades contempladas assumem compromisso de manter registros zootécnicos, participar de avaliações periódicas de produção e reinvestir parte dos ganhos na ampliação do plantel. Em contrapartida, a associação garante acompanhamento veterinário, cursos de capacitação e facilitação de acesso a crédito rural específico para o segmento leiteiro.
Analistas do mercado lácteo avaliam que o reforço genético pode sustentar a recuperação da produção em médio prazo, mas destacam a importância de infraestrutura de armazenamento, transporte refrigerado e preço mínimo remunerador para evitar novas quedas. Mudanças recentes no custo de insumos e na volatilidade do preço pago ao produtor motivaram o abandono da atividade por parte de alguns pecuaristas sul-matogrossenses nos últimos anos.
A Expogenética 2025 reuniu ainda palestras sobre manejo de pastagens, controle de mastite e inovação tecnológica, com demonstrações de ordenha robotizada e softwares de gestão. Expositores apresentaram equipamentos voltados à melhoria do conforto animal e da eficiência energética, reforçando a integração entre genética, tecnologia e sustentabilidade.
Com a aposta nos novos rebanhos de Girolando, governo e entidades pretendem recolocar Mato Grosso do Sul no grupo de Estados reconhecidos pela produção de leite de qualidade. A meta é reduzir a dependência de outras regiões, fortalecer a renda de pequenos produtores e assegurar o abastecimento do mercado interno, sem abrir mão de práticas ambientalmente corretas que possam atender exigências de consumidores e indústrias.
O desempenho do programa será monitorado ao longo dos próximos ciclos de lactação. Caso as metas de produtividade sejam alcançadas, está previsto o aumento do número de agricultores atendidos e a inclusão de linhas de financiamento para aquisição de equipamentos de resfriamento, sistemas de irrigação de pastagens e ampliação de instalações de compost barn, modelo que melhora o bem-estar dos animais e contribui para ganhos adicionais de produção.
A medida encerra um período de incertezas para a cadeia leiteira sul-matogrossense. Se os resultados de campo confirmarem as projeções apresentadas na feira, a distribuição de vacas Girolando de alta genética poderá representar um passo decisivo para recuperar a competitividade do Estado no cenário nacional, apoiada em incremento de produtividade, redução de custos ambientais e sustentabilidade econômica das pequenas propriedades.









