Pelo menos duas pessoas morreram e outras três ficaram feridas na madrugada de domingo, 16 de junho, durante um ataque contra a retomada de Pyelito Kue, localizada na Terra Indígena Iguatemipeguá I, no município de Iguatemi, sul de Mato Grosso do Sul. De acordo com relatos de moradores e confirmação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), cerca de 20 homens armados cercaram a comunidade e dispararam repetidamente contra as moradias.
As vítimas fatais foram identificadas como Vicente Kaiowá e Guarani, integrante da comunidade indígena, e um funcionário de uma propriedade rural vizinha. Entre os feridos há, pelo menos, dois adolescentes que apresentavam perfurações por projéteis nos braços e no abdômen. Lideranças locais afirmam que o total de feridos pode ser superior ao número divulgado até o momento, pois parte dos moradores permanece isolada e sem atendimento médico imediato.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou que a Força Nacional de Segurança Pública já se encontra na região. Ainda assim, indígenas relatam dificuldade para receber socorro por conta de bloqueios em vias de acesso. Segundo essas lideranças, os agentes federais teriam entrado na área pela fazenda vizinha, enquanto supostos pistoleiros mantinham a ponte principal sob controle, impedindo a circulação de ambulâncias e veículos de resgate.
Moradores relatam que o cerco começou nas primeiras horas do dia, quando os homens armados tomaram posições próximas à ponte que conecta a retomada à zona urbana de Iguatemi. O grupo avançou em direção às casas, efetuando disparos contínuos. Comunicações entre as famílias foram mantidas por mensagens de celular, relatando a impossibilidade de saída e a permanência de crianças e idosos nas residências sem acesso a abrigo seguro.
Representantes Kaiowá e Guarani manifestaram suspeitas de participação de policiais militares e de integrantes do Departamento de Operações de Fronteira (DOF) entre os agressores. As lideranças exigem investigação federal para apurar possível conivência ou envolvimento de agentes públicos no episódio. Até o momento, não há confirmação oficial sobre a presença de servidores estaduais ou federais entre os autores dos disparos.
O confronto ocorreu um mês após a retomada, pelos Kaiowá e Guarani, de parte da Fazenda Cachoeira, área sobreposta à Terra Indígena Iguatemipeguá I e contígua à aldeia de Pyelito Kue. A comunidade já ocupava, desde 2015, 100 hectares da Fazenda Cambará, também dentro dos mesmos limites territoriais. A Terra Indígena foi delimitada em 2013, com extensão de 41,5 mil hectares, mas ainda aguarda a conclusão do processo de demarcação e homologação.
Em nota oficial, a Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul confirmou as duas mortes e informou que forças estaduais prestaram apoio logístico às equipes federais. O órgão acrescentou que duas pessoas feridas seguem hospitalizadas em unidades de saúde da região. Um terceiro ferido, indígena suspeito de envolvimento no caso, foi detido pela Polícia Militar após receber atendimento inicial e encaminhado à Polícia Federal para depoimento.
A secretaria estadual esclareceu, ainda, que a Polícia Militar não mantinha patrulhamento ostensivo na Terra Indígena devido a decisão judicial que restringe a presença de tropas estaduais em áreas de conflito fundiário sem autorização prévia. Apesar dessa limitação, equipes foram deslocadas para garantir a preservação de vestígios e prestar apoio na retirada de vítimas.
Os fatos ocorreram em um cenário de disputa fundiária que se arrasta há anos na região. Produtores rurais contestam a delimitação da Terra Indígena Iguatemipeguá I, enquanto os Kaiowá e Guarani afirmam direito originário sobre a área. A indefinição jurídica tem gerado sucessivos episódios de tensão, incluindo despejos, reintegrações de posse e confrontos armados.
Após o ataque de domingo, entidades de defesa dos direitos humanos e organizações indígenas solicitaram reforço de segurança e o envio de equipes médicas. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou que acompanha o caso e que solicitou à Polícia Federal a abertura de inquérito para identificar os responsáveis. Não há, até o momento, informações sobre prisões além da detenção do indígena apontado pela Polícia Militar.
A Força Nacional permanece na área para garantir a passagem de ambulâncias e a proteção da comunidade até que a situação seja considerada estável. Peritos da Polícia Federal iniciaram levantamentos no local para coletar cápsulas de munição, fotografar danos às residências e mapear a trajetória dos disparos. O resultado preliminar dessas análises deverá embasar os próximos passos da investigação.
Autoridades federais e estaduais evitam estimar prazos para a conclusão do inquérito ou para eventual reforço permanente de policiamento. Enquanto isso, os Kaiowá e Guarani permanecem na retomada de Pyelito Kue e reafirmam que não pretendem deixar o território, mesmo diante da escalada de violência.
Com o avanço das investigações, devem ser definidos os procedimentos de proteção à comunidade e de mediação do conflito agrário. A Funai manteve assistência às famílias afetadas, com entrega de mantimentos e apoio psicológico, e informou que atualizações sobre o estado de saúde dos feridos serão repassadas conforme a liberação dos boletins médicos.









