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Oferta menor de boi gordo e avanço de aves e suínos redefinem ciclo da pecuária brasileira

Um relatório anual de uma consultoria especializada em agronegócio projeta mudanças significativas para as cadeias de proteína animal no Brasil a partir de 2026. A análise indica menor disponibilidade de boi gordo, recuperação consistente da avicultura e crescimento continuado da suinocultura, combinação que redesenha o cenário da pecuária nacional.

Pecuária de corte entra em fase de restrição de oferta

Segundo o estudo, a pecuária de corte sente os efeitos de um volume elevado de abate de fêmeas registrado nos últimos três a quatro anos. Esse movimento ampliou a oferta de carne bovina no curto prazo, mas reduziu o número de matrizes em idade produtiva. Com menos vacas aptas a gerar bezerros, o mercado terá menos animais prontos para abate a partir de 2026, estreitando a disponibilidade de carne bovina.

A consequência direta dessa restrição é a expectativa de recomposição nos preços da arroba. A consultoria avalia que a menor oferta criará espaço para valorizações nas principais praças pecuárias, mesmo com o consumo interno ainda limitado pelo poder de compra das famílias. Produtores que conseguiram atravessar o período de preços mais baixos com as finanças equilibradas tendem a se beneficiar dessa fase de recuperação.

Em Mato Grosso do Sul, as cotações recentes ilustram o momento de estabilidade antecedendo a possível inflexão do ciclo. Na praça de Três Lagoas, o valor a prazo em 30 dias é de R$ 315 por arroba, enquanto Campo Grande e Dourados registram R$ 316, sem considerar descontos de Funrural e SENAR. Apesar de recuos pontuais observados em estados como Pará e algumas regiões do Paraná, o quadro geral aponta acomodação após meses de maior volatilidade.

Avicultura retoma fôlego após turbulências sanitárias

O segmento de carne de frango, que enfrentou um ano marcado por focos isolados de gripe aviária e interrupções temporárias de exportações, apresenta sinais de recuperação. A consultoria prevê encerramento de 2024 em terreno positivo e manutenção do ritmo de crescimento em 2025 e 2026. A reabertura gradual de mercados que haviam imposto restrições, após a comprovação de que os episódios sanitários estavam circunscritos, recolocou o Brasil na rota de grandes importadores.

Regiões como Oriente Médio, Ásia e África seguem com demanda consistente, reforçando a posição brasileira como principal fornecedor global de carne de frango. A competitividade nacional é favorecida pela oferta reduzida em concorrentes que também enfrentaram problemas sanitários, além da disponibilidade interna de grãos para ração, fator relevante na composição de custos.

Suinocultura mantém trajetória de expansão

A suinocultura brasileira mantém crescimento robusto. O relatório estima recordes de produção e exportação em 2025, acompanhados de avanço no consumo doméstico. A carne suína tem ganhado participação na dieta do consumidor, favorecida pela diferença de preço em relação à bovina e pela diversificação de cortes e produtos industrializados.

Mesmo em ambiente positivo, os analistas recomendam atenção às variações da demanda externa. Alterações nas compras de países-chave podem exigir ajustes rápidos nos volumes produzidos e nas estratégias de comercialização. Até o momento, no entanto, ganhos de eficiência e a ampliação da base de consumo sustentam perspectivas otimistas para 2026.

Impactos regionais e necessidade de gestão eficiente

Estados com forte presença nas três cadeias, como Mato Grosso do Sul, acompanham de perto o novo ciclo da pecuária. A infraestrutura industrial, a disponibilidade de grãos e a localização estratégica favorecem a competitividade regional. Porém, a capacidade de cada produtor ajustar sistemas de produção, controlar custos e definir políticas de venda será determinante para captar oportunidades e mitigar riscos.

Com oferta mais curta de bois prontos para abate, frigoríficos podem disputar lotes com maior intensidade, elevando a arroba. Paralelamente, granjas de aves e suínos devem avaliar estratégias de confinamento, nutrição e sanidade para responder rápido a oscilações de mercado. A combinação desses fatores deve definir o ritmo de investimentos e expansão no campo e na indústria.

Perspectivas convergentes

O relatório conclui que a redução da disponibilidade de carne bovina, a retomada da avicultura e a expansão da suinocultura tendem a coexistir nos próximos anos, compondo oferta diversificada de proteína animal. Enquanto o consumidor brasileiro adapta o hábito de compra conforme preço e renda, o mercado externo permanece determinante para o escoamento de volumes adicionais de frango e carne suína.

Frente a esse cenário, agentes de toda a cadeia buscam equilibrar produção, contratos e investimentos. A dinâmica entre menor oferta de boi gordo, competitividade da carne de frango e avanço da suinocultura redefine prioridades e estratégias, estabelecendo as bases para a próxima fase da pecuária brasileira.