Campo Grande – A consolidação do Corredor Bioceânico de Capricórnio, apontado pelo governo federal como eixo estratégico para a integração sul-americana, pressiona a capacidade de atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Mato Grosso do Sul. Um relatório da Diretoria de Inteligência da corporação, divulgado em dezembro, indica que a infraestrutura policial no estado não acompanha o ritmo das obras e do aumento previsto no fluxo de cargas, passageiros e mercadorias ilícitas.
O corredor interliga o Porto de Santos (SP) aos portos do norte do Chile ao longo de aproximadamente 2,2 mil quilômetros, combinando rodovias, ferrovias, hidrovias e terminais marítimos. No território brasileiro, a rota passa por São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, utilizando trechos das BR-262, BR-267, BR-163, BR-101, BR-116, BR-153 e BR-282. A travessia em construção sobre o rio Paraguai, entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta (Paraguai), consolida o estado como porta de saída rumo ao Pacífico.
A avaliação oficial projeta que Mato Grosso do Sul se torne um hub logístico internacional, com aumento expressivo de caminhões nas BR-267, BR-262, BR-163 e BR-060. Esse cenário, no entanto, convive com uma estrutura policial considerada insuficiente. Atualmente, a Superintendência da PRF no estado dispõe de nove delegacias, 24 unidades operacionais, um hangar, bases especializadas e pouco mais de 600 policiais para cobrir 357 mil quilômetros quadrados, boa parte em áreas remotas e de difícil comunicação.
O estudo enumera gargalos que podem comprometer o funcionamento pleno do corredor. Além da extensão territorial, pesam a ausência de sinal em trechos rodoviários, a carência de instalações na faixa de fronteira e a alta demanda por fiscalização de crimes transnacionais. A expectativa é de intensificação do tráfico de drogas e armas, contrabando, descaminho, delitos ambientais e circulação de veículos adulterados, práticas que já marcam a região.
No eixo paulista do trajeto, onde grande parte das rodovias está sob concessão estadual, a atuação da PRF tende a ser mais estratégica, centrada em inteligência e integração com forças estaduais para coibir roubo de cargas e desvios em centros logísticos. Já no Paraná e em Santa Catarina, a pressão recai sobre rodovias que concentram trânsito interno e acesso a portos marítimos e fronteiras terrestres, locais que historicamente registram apreensões relevantes de entorpecentes e produtos contrabandeados.
O documento também destaca um vácuo de governança institucional. Embora a PRF seja considerada braço do Estado nas rotas logísticas, não possui assento deliberativo fixo nos comitês executivos que coordenam as Rotas de Integração. A participação costuma ocorrer por convites pontuais, o que dificulta o planejamento conjunto de segurança viária e controle de fronteiras. A proposta interna sugere criar um eixo permanente de segurança pública, sob coordenação do Ministério da Justiça e Segurança Pública, reunindo PRF, Polícia Federal, órgãos estaduais e agências de fiscalização.
A gestão de efetivo aparece como ponto crítico. A rotatividade dos policiais em regiões isoladas é elevada, e a indenização prevista na Lei nº 12.855/2013, focada em áreas estratégicas, não tem sido suficiente para fixar servidores. O contingente nacional está limitado por lei a pouco mais de 13 mil cargos. Em discussão, a criação de 4.902 novas vagas ainda carece de definição de prazo e orçamento, segundo o relatório.
Capacitação específica para corredores internacionais figura entre as recomendações. O estudo aponta necessidade de domínio de idiomas, legislação e procedimentos de comércio exterior, técnicas de inteligência de fronteira e uso avançado de tecnologia aplicada a logística. A corporação propõe um plano nacional de treinamento contínuo, com recursos garantidos e conteúdo adaptado às particularidades regionais.
Na área tecnológica, a maturidade é considerada desigual entre superintendências. No Mato Grosso do Sul, falhas de conectividade atrasam o uso em tempo real de sistemas de monitoramento. Nos estados do Sul e Sudeste, a principal dificuldade é a interoperabilidade, pois plataformas estaduais de segurança e transporte não se comunicam plenamente com as bases da PRF. Entre as ações prioritárias estão expansão de câmeras com leitura automática de placas, inclusive estrangeiras, integração de bancos de dados com países vizinhos e criação de centros de monitoramento do corredor apoiados por inteligência artificial.
Para Mato Grosso do Sul, o plano de ação menciona novas unidades em Porto Murtinho, Ivinhema e Nova Andradina; realocação de estruturas em Corumbá e Rio Brilhante; e reforço nas bases de Dourados e Campo Grande. A lista inclui implantação de energia fotovoltaica, reforma de instalações degradadas, aquisição de viaturas, drones, radares móveis, scanners portáteis e ampliação de conexão por internet satelital em áreas sem cobertura.
O relatório conclui que o avanço do Corredor Bioceânico pode reposicionar o Brasil como centro logístico sul-americano, mas adverte que esse objetivo depende de presença policial planejada, estável e tecnicamente preparada ao longo dos principais eixos rodoviários.









