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Fogos de artifício mantêm clima festivo, mas expõem cães e gatos a riscos de fuga, ferimentos e fobia sonora

As comemorações de Natal, réveillon e outros eventos coletivos continuam associadas ao uso de fogos de artifício com estampido, prática que, apesar de proibida em Campo Grande (MS), causa consequências diretas à saúde e à segurança de cães e gatos. Especialistas e tutores relatam episódios de pânico, tentativas de fuga, agressividade e até acidentes graves registrados sempre que o barulho começa.

A médica-veterinária Juliana Harumi aponta que o medo não representa um “exagero” comportamental, mas uma reação biológica. Cães percebem sons de até 40 mil hertz e gatos alcançam 65 mil, faixas muito superiores à capacidade humana. Ruídos altos, repentinos e imprevisíveis são, portanto, interpretados pelos animais como ameaça real, disparando a liberação de hormônios do estresse e desencadeando respostas de luta ou fuga.

Essa sensibilidade explica os dados de uma pesquisa nacional da plataforma Petlove, realizada em 2022. Entre 1.244 tutores entrevistados, 84,8% disseram que seus pets apresentam sinais negativos diante de fogos ou barulhos intensos. As principais reações mencionadas foram esconderijo repentino, tremores, vocalização excessiva, buscas por colo, confusão no ambiente e escapadas perigosas.

Quando o medo evolui para fobia, a resposta pode comprometer a integridade física do animal. Juliana Harumi observa que descargas hormonais intensas levam cães e gatos a agir sem autocontrole, o que explica quedas de sacadas, atropelamentos, brigas entre animais e desaparecimentos relatados todos os anos.

Relatos de tutores demonstram gravidade

A tutora Carolina Toffanetto enfrentou a primeira virada de ano com sete gatos e três cães e descreve um cenário de “caos” no quintal. Segundo ela, os gatos escalaram árvores e só desceram no dia seguinte, enquanto uma cadela com problema cardíaco apresentava tremores contínuos. Outra, chamada Maggie, tornou-se agressiva e mordeu uma companheira de casa.

Em outro caso, Taís Wölfert relata que a cachorra Fiona já quebrou a unha ao tentar escapar dos estampidos. O ferimento sangrou intensamente, exigindo atendimento veterinário de urgência. “Foi um gasto que não existiria se as pessoas tivessem consciência”, afirma.

As ocorrências não se restringem às festas de fim de ano. Jogos de futebol, comemorações particulares e tempestades com trovões podem reproduzir o mesmo cenário de estresse. Em residências com vários animais, o impacto costuma ser maior, pois o pânico de um contagia os demais.

Legislação existe, fiscalização é o desafio

Campo Grande possui lei municipal que proíbe a soltura de fogos com estampido na área urbana, medida criada para proteger pessoas com hipersensibilidade auditiva — como idosos, crianças e indivíduos com Transtorno do Espectro Autista — além de animais domésticos e silvestres. Na prática, tutores relatam dificuldade para registrar denúncias e percebem sensação de impunidade. Queixas podem ser encaminhadas à Guarda Municipal pelo telefone 153 ou à Polícia Militar pelo 190, mas há relatos de resultado insatisfatório.

Muitos responsáveis por pets preferem abrir mão de viagens nas datas comemorativas para acompanhar os animais. “Seis gatos e três cachorras não podem ficar sozinhos”, lamenta Carolina, que afirma ter desistido de passar Natal e Ano Novo fora justamente pela falta de cumprimento da lei.

Dicas de prevenção em casa

Para reduzir riscos, especialistas recomendam:

Manter cães e gatos em ambiente interno, com portas, janelas e sacadas fechadas;
Não usar coleiras ou correntes, pois o desespero pode causar enforcamento ou ferimentos;
Criar refúgios, como caixas de transporte, caminhas tipo toca ou cômodos mais silenciosos;
Ativar som ambiente ou música calma para mascarar ruídos externos;
Oferecer companhia constante e evitar mudanças bruscas de rotina;
Procurar avaliação veterinária caso haja histórico de medo intenso ou indícios de fobia;
Nunca administrar medicamentos sem orientação profissional.

Juliana Harumi reforça que intervenções preventivas garantem melhor qualidade de vida ao animal e evitam acidentes. Em situações extremas, o veterinário pode indicar terapias comportamentais ou farmacológicas específicas, sempre sob acompanhamento regular.

Convivência pacífica depende de respeito mútuo

Enquanto a queima de fogos continua a iluminar o céu de datas festivas, especialistas defendem que a população reforce o cumprimento da legislação vigente e adote alternativas silenciosas, como fogos de efeito visual sem estampido. Pequenas mudanças de hábito, aliados à fiscalização efetiva, podem preservar o espírito comemorativo sem transformar o período numa experiência traumática para cães, gatos e seus tutores.