O contingente de jovens que não está matriculado em instituições de ensino nem inserido no mercado de trabalho, conhecido como população “nem-nem”, continua em proporções preocupantes em diversas regiões do país. O cenário, descrito em reportagem veiculada neste sábado, expõe a carência de redes de suporte capazes de oferecer orientação profissional, apoio familiar e políticas públicas consistentes para essa faixa etária.
Especialistas ouvidos pela matéria avaliam que a situação não pode ser atribuída unicamente à responsabilidade individual. A ausência de famílias estruturadas, mentores e referências comunitárias dificulta a permanência na escola e a busca pelo primeiro emprego. Sem essas bases de sustentação, estudo e trabalho passam a ser percebidos como metas distantes, alcançáveis apenas em circunstâncias excepcionais.
Outro ponto destacado é a limitação de políticas públicas voltadas à juventude. De acordo com o relato dos entrevistados, iniciativas governamentais frequentemente não chegam a quem mais necessita, seja por falta de capilaridade, seja por excesso de burocracia. Programas de capacitação, estágios e aprendizagem ficam restritos a pequenos grupos, enquanto a maioria encontra barreiras para se inscrever ou sequer tem acesso à informação sobre essas oportunidades.
Nesse contexto, muitos jovens acabam recorrendo a alternativas de alto risco. A promessa de ganhos fáceis na internet, esquemas de renda rápida ou empregos totalmente informais aparece como opção diante da falta de ocupação formal. A consequência direta é a baixa mobilidade social, somada à frustração e à exposição a atividades que podem comprometer o futuro profissional e pessoal desses indivíduos.
A reportagem ressalta que, quando um jovem consegue superar os obstáculos e ingressar em uma vaga de trabalho ou curso técnico, o feito tende a ser usado como exemplo de que todos podem alcançar o mesmo resultado. No entanto, a visão de que o êxito individual é replicável para a massa de estudantes é considerada equivocada pelos analistas ouvidos. Para cada caso de sucesso, milhares permanecem sem acesso a cursos gratuitos, mentorias ou processos seletivos realmente inclusivos.
A superação do problema, segundo o texto, exige atuação articulada. Empresas que criam programas de estágio e aprendizagem compatíveis com a realidade de quem ainda não possui experiência profissional contribuem para quebrar o ciclo de exclusão. Ao oferecer treinamento, acompanhamento e perspectiva de efetivação, essas iniciativas fortalecem a confiança do jovem e aumentam as chances de permanência no mercado formal.
No âmbito governamental, políticas que priorizem educação técnica, saúde mental e inclusão produtiva são enumeradas como fundamentais. Para um número expressivo de jovens, percorrer longas distâncias em transporte público precário em busca do primeiro emprego é parte da rotina. Nesse cenário, medidas que simplifiquem processos de contratação, ampliem a divulgação de vagas e ofertem bolsas de estudo podem fazer diferença significativa.
A sociedade civil organizada também é apontada como agente essencial. Projetos de orientação vocacional, redes de apoio psicológico e iniciativas de reforço escolar colaboram para reduzir o índice de evasão e preparar os estudantes para o mercado de trabalho. A reportagem reforça que a valorização e a divulgação dessas ações ajudam a criar referências positivas e mostram à juventude que é possível protagonizar a própria trajetória.
Não há consenso sobre soluções imediatas ou abrangentes, mas os entrevistados convergem na necessidade de investir no que classificam como “básico bem-feito”. Entre as prioridades, destacam-se a redução de entraves burocráticos, incentivos fiscais ao primeiro emprego, ampliação do acesso à informação e criação de redes formais de apoio. Essas medidas, afirmam, podem reduzir a incidência de jovens fora da escola e do trabalho sem depender de programas de grande complexidade ou alto custo.
Ao longo do texto, é enfatizado que política pública deve ser entendida como instrumento voltado ao cuidado de pessoas, e não apenas à ocupação de cargos ou ao cumprimento de metas administrativas. O objetivo principal, defendem os participantes da matéria, precisa ser a criação de condições que permitam a cada jovem construir o próprio futuro com autonomia, sem depender de fatores aleatórios ou da chamada “sorte”.
Os especialistas consultados concluem que, quando apoio institucional e comunitário é oferecido de maneira consistente, o resultado se reflete em melhores perspectivas educacionais e profissionais. A permanência na escola aumenta, o ingresso em ocupações formais é facilitado e a vulnerabilidade a propostas arriscadas diminui. Dessa forma, apontam, reduzir o contingente “nem-nem” significa não apenas melhorar indicadores sociais, mas também fortalecer o desenvolvimento econômico e a coesão social do país.









