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Conflitos familiares expostos na internet podem acabar na Justiça, alerta advogado

A primeira edição de 2026 do quadro “Explicando Direito” foi ao ar nesta quarta-feira, 7, e contou com a participação do advogado Paulo Cesar Nunes da Silva, sócio do escritório Nunes & Gomes. Convidado para tratar de um tema cada vez mais frequente nos tribunais, o profissional analisou como desentendimentos familiares expostos em redes sociais podem resultar em disputas judiciais.

No encontro, o especialista destacou que a principal razão para o crescimento das demandas está no comportamento de usuários que recorrem às plataformas digitais para desabafar questões privadas. Segundo ele, no passado o espaço habitual para esse tipo de conversa era restrito a amigos próximos ou parentes de confiança. Atualmente, a publicação de mensagens em perfis abertos — ou acessíveis a um grande número de seguidores — faz com que problemas antes restritos ao círculo familiar ganhem visibilidade pública, criando um ambiente propício a conflitos amplificados.

De acordo com o advogado, a própria dinâmica das redes contribui para a escalada de tensões. Quando um desentendimento é compartilhado on-line, comentários, compartilhamentos e reações podem multiplicar o alcance do conteúdo, conferindo novas camadas de interpretação e aumentando a possibilidade de críticas. Com isso, o que poderia ser resolvido por meio de uma conversa reservada ou diante de um mediador passa a envolver um público muito maior, tornando a reconciliação mais complexa e, muitas vezes, levando uma das partes a procurar respaldo judicial.

A exposição pública, pontuou Nunes da Silva, tem consequências que vão além do embaraço emocional. Publicações motivadas por raiva momentânea podem incluir acusações, revelações de detalhes íntimos ou comentários considerados ofensivos. Ainda que o autor do texto ou do vídeo pretenda apenas expressar frustração, o conteúdo gerado pode ser interpretado como ilícito pela pessoa citada, dando origem a processos de reparação de danos ou a discussões sobre responsabilidade civil.

O convidado alertou que a facilidade de acesso às ferramentas digitais faz com que muitos usuários subestimem os efeitos jurídicos de suas postagens. Na prática, explicou, a noção de que “a internet não esquece” se aplica de forma rigorosa em litígios familiares. Mesmo que um conteúdo seja apagado depois de publicado, registros, capturas de tela e arquivamentos automáticos permitem que provas sejam preservadas e apresentadas em juízo, mantendo viva a controvérsia.

Outro ponto abordado foi o impacto emocional da repercussão on-line sobre os integrantes da família. A propagação de informações sensíveis pode gerar sentimentos de hostilidade e constrangimento, o que dificulta qualquer tentativa de acordo extrajudicial. Nunes da Silva observou que conflitos envolvendo ex-cônjuges, guarda de filhos ou partilha de bens tendem a se agravar quando detalhes do processo são comentados em redes sociais, pois cada nova publicação adiciona elementos que precisam ser analisados pelos advogados e pelo juiz.

Durante a entrevista, o especialista defendeu a busca de canais privados de diálogo como forma de prevenir litígios. Para ele, a mediação e a conciliação continuam sendo os instrumentos mais adequados para solucionar divergências familiares, sobretudo quando envolvem questões emocionais e patrimoniais. Ao expor o problema publicamente, afirmou, existe o risco de “maximizar” o desentendimento e inviabilizar soluções rápidas e menos onerosas.

Nunes da Silva ressaltou, ainda, que a legislação brasileira garante o direito à honra e à imagem, determinando que a divulgação de informações capazes de ferir esses direitos pode ensejar indenização. Apesar de não citar casos específicos, ele observou que a jurisprudência dos tribunais já reconhece a relevância das redes sociais como espaço onde se configuram atos ilícitos, ainda que a intenção original do usuário seja apenas se manifestar.

Em suas considerações finais, o advogado reforçou a recomendação de prudência na publicação de conteúdo relacionado a conflitos familiares. Ele lembrou que, na era digital, a fronteira entre esfera privada e exposição pública é tênue, e que a decisão de tornar um problema particular acessível a todos pode desencadear reflexos legais duradouros. Para evitar consequências mais graves, concluiu, é preferível recorrer a orientações jurídicas e a métodos consensuais de resolução antes de levar a disputa para o ambiente virtual.

Com a análise, o primeiro “Explicando Direito” de 2026 cumpriu a proposta de apresentar temas contemporâneos de forma didática, chamando atenção para os cuidados necessários ao lidar com divergências familiares na internet e para o potencial de judicialização decorrente da exposição excessiva.