O governo do México alterou a política de importação de carne bovina e suína e passou a adotar cotas anuais de isenção tarifária a partir de 2026. A nova regra prevê limites de 70 mil toneladas para carne bovina e 51 mil toneladas para carne suína, volumes que poderão entrar no país sem cobrança de impostos. Qualquer quantidade que exceder esses tetos pagará tarifa de 20% no caso da carne bovina e de 16% para a carne suína. Até agora, o mercado mexicano importava esses produtos do Brasil com tarifa zero, independentemente do volume, o que garantia ampla competitividade aos frigoríficos nacionais.
A decisão busca equilibrar a oferta interna mexicana e proteger a produção local diante do aumento das compras externas. Embora as alíquotas estabelecidas ainda fiquem abaixo de níveis cobrados em outros destinos, como a China, elas representam um novo custo para quem exporta do Brasil. Os frigoríficos brasileiros, especialmente os que atuam em Mato Grosso do Sul, terão de recalcular margens e estratégias comerciais para manter participação em um dos seus principais mercados.
Segundo dados do sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura, o México figura entre os maiores importadores de proteína animal brasileira. Entre janeiro e novembro de 2025, o país ocupou a sétima posição no ranking de compradores de carne suína do Brasil, ficando atrás de Filipinas, Japão, China, Chile e outros. No segmento de carne bovina, o México aparece em quinto lugar, depois de China, Estados Unidos, União Europeia e Chile. Esses números reforçam o peso do mercado mexicano na balança do agronegócio e ajudam a dimensionar o impacto das novas tarifas sobre a receita de exportação.
A mudança na política mexicana ocorre no mesmo período em que a China, maior destino da carne bovina brasileira, também introduziu barreiras. No início de 2026, o governo chinês fixou cota anual de 2,7 milhões de toneladas para a importação de carne bovina e determinou sobretaxa de 55% para volumes que ultrapassarem esse patamar. Embora a cota chinesa permaneça elevada, o limite é inferior ao recorde de 2,87 milhões de toneladas registrado no ano anterior. Assim como o México, Pequim afirma que a medida pretende preservar a produção doméstica diante do aumento da demanda interna.
A coincidência de restrições em dois mercados estratégicos coloca desafios adicionais aos exportadores brasileiros. Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores de gado de corte e suínos do país, sente de forma direta essa pressão, pois concentra unidades frigoríficas voltadas a clientes estrangeiros. Com margens comprimidas, empresas podem rever abates, realocar embarques para outros destinos ou negociar reduções tarifárias por meio de acordos bilaterais.
O setor privado e o governo federal avaliam alternativas para mitigar os efeitos das novas barreiras. Entre as opções, estão a busca por abertura ou ampliação de vendas a países do Oriente Médio, Sudeste Asiático e Europa, além da intensificação de ações diplomáticas junto ao México e à China para discutir flexibilizações. Representantes da cadeia da carne também ressaltam a necessidade de aprimorar a competitividade interna por meio de reduções de custos logísticos e tributários.
Analistas do comércio exterior observam que, mesmo com a imposição de tarifas, o México segue como destino atrativo para a proteína animal brasileira, pois a oferta doméstica ainda é insuficiente para atender a totalidade do consumo. Entretanto, o diferencial de preço, antes sustentado pela isenção tarifária, diminuirá. Exportadores que ultrapassarem as cotas deverão absorver ou repassar parcelas do novo imposto, o que pode levar a ajustes na quantidade exportada ou na formação de preços.
Além do impacto imediato sobre as receitas, a medida mexicana pode influenciar decisões de investimento na indústria de carnes. Frigoríficos que planejam ampliar capacidade em estados exportadores, como Mato Grosso do Sul, deverão reavaliar projetos à luz da menor previsibilidade do mercado externo. Em paralelo, produtores rurais acompanham de perto as negociações para garantir escoamento da produção e manutenção da renda no campo.
Com dois importantes compradores adotando limites quantitativos e tarifas, o cenário de curto e médio prazo para a carne brasileira se torna mais complexo. A efetividade das estratégias de diversificação de mercados e de diálogo comercial definirá o ritmo de adaptação do setor, que busca preservar participação global apesar das novas barreiras impostas por México e China.









