Search

Entregadores impulsionam abertura de MEIs e lideram novos registros em Mato Grosso do Sul

O avanço do comércio eletrônico redefiniu a logística de entregas em Mato Grosso do Sul e colocou os profissionais que atuam fora do sistema postal oficial no topo da abertura de microempreendimentos individuais (MEIs). Entre maio e agosto de 2025, o segmento classificado como “Serviços de Malote Não Realizados pelo Correio Nacional” abriu 1.673 novos registros, volume que o posiciona na liderança entre todas as atividades econômicas formalizadas no estado no período.

Levantamento feito a partir de dados da Receita Federal, do Sebrae/MS e da Junta Comercial de Mato Grosso do Sul (Jucems) indica que há 3.986 MEIs ativos nessa categoria. Em 2021, eram 435. O salto de 816% em quatro anos acompanha a disseminação das compras pela internet, que exige entregas rápidas, flexíveis e descentralizadas. Hoje, o estado soma 219.905 microempreendedores individuais, sendo que quase dois terços integram o setor de serviços. Dentro dele, o transporte de malotes se tornou a principal porta de entrada para quem busca formalizar pequenas operações de entrega.

A capital, Campo Grande, concentra a maior parte dos registros, com 7.915 MEIs dedicados a serviços de malote. Dourados aparece na segunda posição, com 1.826, seguida por Três Lagoas, que reúne 825 empreendedores. A distribuição reflete o peso dos centros urbanos na geração de demanda por logística de última milha, fortemente conectada às plataformas de e-commerce, shoppings e redes varejistas.

Para o Sebrae/MS, três fatores explicam o fenômeno: a expansão do comércio eletrônico, o processo simples de formalização e o investimento inicial reduzido. Na maioria dos casos, basta efetuar o cadastro como MEI e dispor de um meio de transporte — motocicleta, bicicleta ou até mesmo carro — para iniciar a atividade. Conforme destaca o analista-técnico Carlos Henrique Oliveira, a procura se intensifica logo após as festas de fim de ano, quando parte dos entregadores que atuou de forma informal decide manter o trabalho de modo permanente e, para isso, opta pela formalização.

No recorte que considera atividades principais e secundárias, o grupo “Transporte, Armazenagem e Correios” reúne 3.993 microempreendimentos, ocupando a segunda posição entre os MEIs sul-mato-grossenses. O perfil dos empreendedores mostra predominância masculina: a atividade de malote é a principal ocupação econômica para 9.777 homens. Já as mulheres representam 42,7% do total de MEIs do estado, com maior concentração no comércio varejista de vestuário e acessórios.

Além da formalização acelerada, o setor se destaca na geração de empregos. Em 2024, 739 trabalhadores foram contratados por empresas ligadas a serviços de malote em Mato Grosso do Sul, colocando o estado entre os maiores empregadores nessa atividade no país. A remuneração também supera a média nacional: em 2025, o salário médio pago foi de R$ 2.176,82. O índice de intensidade de emprego — média de 12,5 trabalhadores por empresa — garante ao estado a primeira posição nacional nesse quesito.

Os números nacionais reforçam a tendência. Em 2024, o setor registrou 13.899 empregados no país, avanço de 9,16% sobre o ano anterior, e contabilizou 259.312 empresas ativas até dezembro de 2025. A dinâmica confirma a contribuição dos serviços de entrega independentes na malha logística brasileira.

Em Campo Grande, a trajetória de Darsley Magalhães exemplifica o movimento de migração profissional. Após sete anos como motorista de aplicativo, ele se formalizou há oito meses para atuar em plataformas de marketplace. Segundo o microempreendedor, a flexibilidade de horário foi decisiva para a mudança, mesmo diante de obstáculos como longas filas para retirada de pacotes, exposição a condições climáticas adversas e eventuais ausências de clientes. A receita diária média, estimada por ele em R$ 220, garante rendimento semanal de aproximadamente R$ 1.100, valor que precisa cobrir a contribuição mensal do MEI, combustível e manutenção do veículo.

Ainda que não conte com benefícios trabalhistas típicos dos contratos regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como férias e décimo terceiro salário, Magalhães avalia positivamente a possibilidade de organizar a própria rotina e destinar parte da renda a viagens e outras metas pessoais. Para manter a atividade sustentável, afirma ser necessário planejamento financeiro e disciplina.

Com indicadores de crescimento superiores à média brasileira, Mato Grosso do Sul consolida-se como ambiente fértil para microempreendedores do ramo de entregas. A combinação entre demanda crescente, processos simplificados de formalização e remuneração relativamente competitiva sustenta a projeção de que os serviços de malote continuem a cumprir papel central na estrutura de logística do comércio eletrônico no estado.