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Campanha Janeiro Branco ressalta a necessidade de atenção permanente à saúde mental

Ao longo de janeiro, ações em todo o país estimulam a reflexão sobre saúde mental por meio da campanha Janeiro Branco. Embora as atividades se concentrem nas primeiras semanas do ano, profissionais da área sublinham que o cuidado psicológico deve ocorrer de forma contínua, integrado às políticas públicas de saúde e livre de estigmas que ainda afastam parte da população dos serviços especializados.

Prevenção e tratamento além do caráter simbólico

A terapeuta integrativa e especialista em desenvolvimento humano Andrea Cardoso observa que o sofrimento psíquico não se limita a momentos pontuais. Segundo ela, pessoas acometidas por ansiedade, depressão ou outros transtornos enfrentam desafios diários que repercutem em todos os ambientes – familiar, profissional e social. Na avaliação da especialista, campanhas pontuais contribuem para a conscientização, mas não garantem, por si só, acompanhamento adequado. A consolidação de políticas permanentes permitiria, afirma, avanços em prevenção, diagnóstico precoce e acesso regular a psicólogos e psiquiatras.

Andrea reforça que o adoecimento emocional costuma apresentar sinais progressivos. Mudanças persistentes de humor, comportamento ou rotina, especialmente quando associadas a tristeza prolongada, ansiedade constante, alterações no sono e no apetite, isolamento social e dificuldade de lidar com emoções, indicam a necessidade de avaliação profissional. Em situações mais graves, pensamentos de morte ou autolesão exigem busca imediata por atendimento especializado.

Saúde mental como parte do conceito ampliado de saúde

A psicóloga Gesiane Miyashiro lembra que a definição de saúde proposta pela Organização Mundial da Saúde engloba bem-estar físico, emocional e social. Para a profissional, quando uma pessoa não consegue lidar com as pressões cotidianas e com os próprios sentimentos, podem surgir quadros como ansiedade e depressão. Ela ressalta que restringir o debate a um único mês é insuficiente, pois o cuidado com a saúde mental deve ocorrer ao longo de todo o ano.

Gesiane aponta sinais físicos e comportamentais que merecem atenção. Alterações extremas – comer em excesso ou quase nada, dormir demais ou sofrer de insônia, mudanças bruscas de rotina sem explicação e dores frequentes, como cefaleia – podem indicar adoecimento emocional. A dificuldade de enfrentar frustrações e imprevistos também sugere a necessidade de apoio especializado.

Rede de atendimento em Três Lagoas

No município de Três Lagoas, no interior de Mato Grosso do Sul, a rede pública oferece diferentes portas de entrada para quem busca assistência. As Unidades Básicas de Saúde realizam escuta inicial e, quando necessário, encaminham para serviços de maior complexidade. O Ambulatório de Saúde Mental atende casos moderados, enquanto o CAPS II recebe pacientes com transtornos severos e persistentes. Já o CAPS AD é voltado a pessoas com necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas. O acesso pode ocorrer por encaminhamento da atenção primária ou por demanda espontânea, dependendo da avaliação de cada caso.

Além do Sistema Único de Saúde, universidades e clínicas-escola mantêm atendimentos psicológicos gratuitos ou a baixo custo. O Centro de Valorização da Vida também oferece apoio emocional por meio do telefone 188, serviço disponível 24 horas em todo o território nacional.

Importância da busca por ajuda

Tanto Andrea Cardoso quanto Gesiane Miyashiro destacam que procurar ajuda profissional representa um gesto de cuidado consigo mesmo. Em um contexto de sobrecarga de trabalho, desafios financeiros e incertezas sociais, a prevenção passa por identificar sinais precoces e manter acompanhamento regular quando indicado.

A campanha Janeiro Branco, criada em 2014, adota o primeiro mês do ano como período simbólico para estimular a formulação de metas de saúde mental. Contudo, as profissionais alertam que a efetividade depende da continuidade das ações. Programas de sensibilização nos locais de trabalho e nas escolas, investimentos em formação de profissionais e ampliação da rede de serviços são apontados como estratégias para garantir que o tema permaneça em evidência após o fim do mês.

Dados recentes de instituições de pesquisa apontam aumento na prevalência de transtornos ansiosos e depressivos, cenário que reforça a urgência de políticas públicas consistentes. Embora os números exatos não sejam citados pelas especialistas, elas avaliam que o crescimento da demanda exige expansão de estruturas como CAPS, ambulatórios e serviços de atenção primária capacitados para acolher e orientar a população.

As ações desenvolvidas durante o Janeiro Branco incluem palestras, rodas de conversa, atividades de sensibilização em empresas e distribuição de materiais informativos. Em ambiente corporativo, iniciativas focadas em gestão de pessoas, equilíbrio entre vida profissional e pessoal e promoção de hábitos saudáveis podem reduzir afastamentos e melhorar a produtividade.

Para os especialistas, o avanço da pauta da saúde mental depende da combinação de informação de qualidade, redução do estigma e garantia de acesso a tratamento humanizado. Nesse sentido, a campanha cumpre o papel de colocar o assunto em evidência, mas a consolidação do cuidado requer políticas permanentes e participação de toda a sociedade.