Metade da população mundial poderá enfrentar condições de calor extremo dentro de pouco mais de duas décadas. A projeção consta de um estudo da Universidade de Oxford divulgado pela revista científica Nature Sustainability, que analisa cenários de aquecimento global e aponta consequências para diferentes regiões do planeta. Segundo a pesquisa, se a temperatura média global ultrapassar 2 °C em relação aos níveis pré-industriais, cerca de 3,8 bilhões de pessoas estarão expostas a calor intenso até 2050.
O trabalho considera a meta de manter o aquecimento limitado a 1,5 °C, definida no Acordo de Paris, e sinaliza que superar esse patamar ampliará de forma significativa a área habitada sob temperaturas consideradas perigosas para a saúde humana. Nesse cenário de 2 °C, o número de habitantes afetados por calor extremo salta para metade da população global prevista para meados do século.
Os pesquisadores identificam que países de clima tropical, onde as temperaturas já são altas, serão os primeiros a sentir a intensificação do calor. Brasil, Laos, Nigéria, Sudão do Sul e República Centro-Africana estão entre as nações que, segundo o estudo, enfrentarão elevação expressiva nos termômetros, com maior frequência de dias quentes e noites sem resfriamento adequado.
Nações populosas da Ásia e da África também estão na lista das regiões mais vulneráveis. Índia, Nigéria, Indonésia, Bangladesh, Paquistão e Filipinas concentram grande número de habitantes em áreas densamente povoadas e propensas a ondas de calor. A pesquisa destaca que essas populações podem sofrer impactos na saúde, na produtividade econômica e na disponibilidade de água se o aquecimento global não for contido.
Os autores avaliam que muitos dos territórios apontados não dispõem de infraestrutura nem de políticas públicas preparadas para o nível de calor previsto. O estudo prevê que, já nos próximos cinco anos, moradores desses locais buscarão soluções de refrigeração, como a compra de aparelhos de ar-condicionado, em ritmo acelerado. O aumento da demanda energética, se atendido por fontes fósseis, poderá gerar novas emissões de gases de efeito estufa e ampliar o problema climático.
Regiões de clima tradicionalmente frio não ficarão isentas de mudanças relevantes. Finlândia, Rússia e Canadá, segundo a projeção, terão variações relativas de temperatura maiores do que aquelas observadas em países mais quentes. Mesmo incrementos considerados moderados podem provocar efeitos desproporcionais, pois a infraestrutura e o planejamento urbano desses locais foram concebidos para enfrentar invernos rigorosos, e não calor prolongado.
O estudo destaca que em áreas de latitudes mais altas pequenos aumentos médios podem resultar em vários dias de calor intenso durante o verão, pressionando sistemas de saúde, redes elétricas e ecossistemas adaptados a climas frios. Os pesquisadores sublinham que essa mudança cria novos riscos, como incêndios florestais mais frequentes e estresse térmico em populações que raramente lidavam com altas temperaturas.
Para a equipe da Universidade de Oxford, os resultados obtidos funcionam como sinal de alerta para governos, empresas e sociedade civil. Radhika Khosla, uma das líderes do trabalho, afirma que ultrapassar o limite de 1,5 °C de aquecimento deve produzir impactos sem precedentes em áreas como educação, migração, agricultura e saúde. A pesquisadora observa que os números apresentados refletem uma tendência que só poderá ser revertida com a adoção de políticas de desenvolvimento sustentável e a redução rápida das emissões de gases de efeito estufa até atingir níveis líquidos zero.
Os autores enfatizam que limitar o aquecimento global a 1,5 °C ainda evitaria a maior parte da exposição populacional projetada. No entanto, alertam que o ritmo atual de emissões coloca o mundo em trajetória consistente com o cenário de 2 °C ou mais. O estudo sustenta que, sem mudanças na matriz energética e na forma de produzir alimentos, construir cidades e transportar pessoas, os eventos de calor extremo ganharão intensidade e abrangência.
Além de quantificar a população em risco, a pesquisa aborda possíveis implicações socioeconômicas. Entre elas estão a queda de produtividade em atividades ao ar livre, o aumento de gastos com saúde para tratar doenças relacionadas ao calor e potenciais deslocamentos populacionais motivados por condições climáticas adversas. Os autores sugerem que adaptar infraestruturas urbanas, proteger trabalhadores expostos ao sol e expandir sistemas de alerta precoce são medidas urgentes para reduzir vulnerabilidades.
A análise conclui que, embora o impacto seja distribuído de maneira desigual entre as regiões, nenhum país ficará completamente imune ao avanço das temperaturas. Para os pesquisadores, programas de mitigação que priorizem eficiência energética, fontes renováveis e planejamento urbano resiliente representam as ferramentas mais eficazes para evitar que até metade da população mundial viva sob calor extremo em 2050.









