Três Lagoas, MS – A Campanha da Fraternidade 2024, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) com o tema “Fraternidade e Moradia”, recoloca o direito à habitação no centro do debate nacional. Em Três Lagoas, segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, a discussão ganha urgência frente ao avanço industrial e à crescente pressão imobiliária.
Expansão econômica e consequência social
O município de aproximadamente 147 mil habitantes abriga as maiores fábricas de celulose do mundo e se consolidou como polo estratégico para a indústria. Esse dinamismo atraiu milhares de trabalhadores nos últimos anos e continua impulsionando fluxos migratórios, potencializados por empreendimentos regionais, como a futura planta da Arauco em Inocência.
Com pouco mais de 8 mil moradores, Inocência não dispõe de estoque habitacional capaz de acomodar a demanda criada pela nova fábrica. Como reflexo, muitas famílias buscam imóveis em Três Lagoas ou até em Paranaíba. A procura elevada, somada à oferta limitada principalmente de unidades populares, contribui para o encarecimento dos aluguéis e evidencia um problema que extrapola limites municipais.
Números do déficit habitacional
Dados citados pelo bispo Dom Luiz Gonçalves Knupp apontam cerca de 6 milhões de famílias sem moradia no Brasil e 26 milhões residindo em condições inadequadas. Em Mato Grosso do Sul, levantamento indica aproximadamente 76 mil moradias precárias. No contexto local, o Departamento de Habitação de Três Lagoas contabiliza cerca de 4.600 inscritos no cadastro para programas populares.
Apesar da demanda elevada, o município teve investimentos limitados no setor nos últimos oito anos. Em dezembro de 2023, o prefeito Cassiano Maia entregou 20 casas no Jardim das Violetas e anunciou a conclusão das outras 30 unidades que compõem o conjunto de 50 moradias. A entrega representa avanço pontual, porém insuficiente para reduzir o passivo acumulado.
Ocupações e debate jurídico
A escassez de políticas consistentes estimula ocupações espontâneas. Atualmente, Três Lagoas registra dois assentamentos irregulares. O primeiro, em área privada na saída para Brasilândia, reúne mais de 300 famílias desde 2018 que alegam incapacidade de arcar com aluguel. Naquele ano, a Defensoria Pública obteve decisão do Tribunal de Justiça do Estado suspendendo a reintegração de posse; o processo ainda tramita.
O segundo núcleo, localizado em terreno público no bairro São João, formou-se em 2021. As famílias erguem barracos improvisados enquanto aguardam inclusão em projetos habitacionais. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal suspendeu os efeitos de lei municipal que restringia o acesso de ocupantes irregulares a programas de moradia, reforçando o caráter constitucional do direito à habitação vinculado à dignidade da pessoa humana.
Mudança de modelo habitacional
A atual administração municipal iniciou alteração na tipologia das unidades oferecidas, priorizando casas térreas com possibilidade de ampliação ao longo do tempo. A estratégia difere dos grandes conjuntos de apartamentos construídos em décadas anteriores, como Novo Oeste e Orestinho, onde limitações de espaço e problemas sociais foram registrados. Segundo a prefeitura, a adoção de projetos horizontais pretende adequar-se à realidade familiar, oferecer quintal e reduzir riscos de adensamento excessivo.
Planejamento integrado como desafio
A pressão sobre o mercado imobiliário de Três Lagoas e cidades vizinhas demonstra que o crescimento econômico precisa ser acompanhado por planejamento urbano regionalizado. Especialistas defendem políticas que articulem prefeituras, Estado, iniciativa privada e União para ampliar a produção de moradias populares, promover infraestrutura adequada e evitar a formação de bolsões permanentes de precariedade.
Sem respostas estruturais, a proliferação de ocupações improvisadas tende a se repetir, gerando disputas judiciais, ampliando custos de regularização futura e impactando a qualidade de vida da população trabalhadora que sustenta o polo industrial.
Campanha da Fraternidade e engajamento social
Ao eleger a moradia como foco, a Campanha da Fraternidade estimula reflexão que transcende fronteiras religiosas. O movimento procura mobilizar sociedade civil, governos e empreendedores para reconhecer que casa não é apenas abrigo físico, mas fundamento para educação, saúde, trabalho e segurança. No caso de Três Lagoas, o alerta ganha contornos práticos: acompanhar o ritmo da expansão industrial com políticas públicas de habitação passa a ser condição para um desenvolvimento equilibrado.
Enquanto novas fábricas projetam elevar ainda mais a economia local, o déficit de unidades populares permanece como obstáculo concreto. Investir de forma continuada, estabelecer metas claras e articular esforços entre esferas administrativas configuram caminhos apontados por especialistas para alinhar crescimento e inclusão. A oportunidade de antecipar soluções está posta; ignorá-la pode comprometer a trajetória de progresso que hoje impulsiona a região.








