As remessas de carne bovina do Brasil ao exterior atingiram patamar inédito em fevereiro. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) consolidados até o fim da terceira semana do mês indicam volume de 192.700 toneladas embarcadas em apenas 20 dias úteis, superando o recorde histórico de pouco mais de 190.000 toneladas registrado no mesmo período do ano passado.
A média diária de 14.820 toneladas equivale a um crescimento de 55% em relação ao desempenho diário de 2023. O avanço reflete uma combinação de fatores que envolvem, principalmente, a demanda da China e a estratégia dos frigoríficos para aproveitar uma cota de isenção tarifária.
Janela sem tarifa impulsiona ritmo de embarques
O acordo em vigor entre Brasil e China estabelece cota anual de 1.100.000 toneladas de carne bovina que podem entrar no mercado chinês sem incidência de tarifas adicionais. Com receio de que o teto seja alcançado rapidamente, a indústria acelerou os embarques no início do ano para garantir condições mais vantajosas de venda. Pelo lado chinês, importadores também elevaram as compras no mesmo intervalo, buscando assegurar preços mais baixos antes de eventual sobretaxa.
Essa convergência de interesses ajudou a elevar o volume exportado a níveis acima do padrão histórico para o mês. Mesmo sem o encerramento de fevereiro, o total já supera todo o resultado do mês em 2023 e consolida o novo recorde. Caso o ritmo seja mantido até o último dia útil, a marca poderá avançar ainda mais, reforçando a relevância do país no fornecimento de proteína bovina ao mercado internacional.
Comparativo de desempenho
Em 2023, o setor também vinha de trajetória positiva, mas com média diária inferior. A diferença de 55% em 2024 sinaliza aceleração significativa, atribuída principalmente ao acesso temporário ao mercado chinês sem cobrança de tarifa. Ainda que destinos como Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e União Europeia mantenham participação relevante, a China segue como principal compradora, responsável por parte expressiva das vendas externas brasileiras.
Além do salto em volume, o maior fluxo logístico neste começo de ano mobiliza terminais portuários, operadores de contêineres refrigerados e serviços de inspeção sanitária, que precisam responder à demanda extra em prazo curto. Fontes do setor apontam que a organização prévia das linhas de produção ocorreu ainda no último trimestre de 2023, justamente para permitir reação rápida à janela tarifária favorável.
Impactos para a cadeia interna
No mercado doméstico, o aumento das exportações costuma influenciar preços pagos pela arroba do boi gordo e pelos animais de reposição. Entretanto, analistas monitoram o comportamento da oferta interna, o câmbio e o consumo local antes de projetar impactos diretos ao consumidor brasileiro. Por ora, a preocupação central da indústria permanece concentrada na eficiência logística para cumprir contratos internacionais e maximizar o aproveitamento da cota isenta.
Os frigoríficos operam com escalas de abate alongadas e direcionam cortes de maior valor agregado ao mercado externo. Já os cortes de consumo popular tendem a permanecer no mercado interno, estratégia que busca equilibrar margens e atender à demanda doméstica, mais sensível a variações de preço.
Perspectivas para o restante do ano
Com parte expressiva da cota chinesa já preenchida em fevereiro, especialistas do comércio exterior avaliam como o setor vai compor o mix de destinos ao longo de 2024. Se a margem sem tarifa se esgotar antes do segundo semestre, os frigoríficos podem redirecionar volumes a mercados alternativos ou negociar preços que compensem eventual sobretaxa. Nesse cenário, países do Oriente Médio e do Sudeste Asiático despontam como opções para absorver excedentes.
Outro ponto de atenção é a evolução das negociações bilaterais envolvendo requisitos sanitários e eventuais ajustes nas cotas. Eventuais ocorrências sanitárias, como casos de Encefalopatia Espongiforme Bovina (mal da vaca louca), também podem alterar o ritmo de compras da China, como já ocorreu em anos anteriores. Por enquanto, não há registro de restrições adicionais, e as exportações seguem liberadas.
Saldo positivo para a balança comercial
O avanço nas vendas de carne bovina contribui para o superávit da balança comercial brasileira no primeiro bimestre. O agronegócio, maior responsável pelo saldo positivo, amplia sua participação com produtos como soja, açúcar, milho e carnes. A performance dos embarques de carne bovina em fevereiro reforça a projeção de manutenção do Brasil como maior exportador mundial da proteína em 2024.
Embora o resultado parcial do mês já configure recorde, o indicador final depende dos volumes registrados na última semana de fevereiro, que ainda serão consolidados pela Secex. Independente do número final, a marca atingida em apenas três semanas confirma o papel decisivo do mercado chinês e a capacidade da indústria brasileira de responder rapidamente a oportunidades comerciais.
Com o encerramento de fevereiro, os agentes de mercado voltam a avaliar a gestão do estoque remanescente da cota e a competitividade dos preços internacionais. A taxa de câmbio, os custos de produção e a demanda global seguirão determinantes para o ritmo dos embarques nos próximos meses, enquanto a busca por novos clientes se mantém no radar para compensar eventual redução de compras da China após o preenchimento do limite sem tarifa.








