Search

Duplicação da BR-163 põe em risco sustento de 43 famílias no distrito de Anhanduí

Moradores e comerciantes de Anhanduí, distrito de Campo Grande (MS), reuniram-se na quarta-feira (25) em audiência pública para discutir o possível fechamento de 43 barracas instaladas às margens da BR-163. A remoção dos pontos de venda está prevista nos estudos preliminares da concessionária Motiva Pantanal, responsável pela duplicação da rodovia no trecho urbano. O encontro ocorreu no ginásio de esportes de uma escola local e contou com a participação de representantes da Câmara Municipal, que analisa medidas de proteção ao comércio tradicional.

As barracas, conhecidas pela oferta de doces caseiros, queijos, conservas e artesanato, funcionam há décadas e constituem a principal fonte de renda de 43 famílias. Segundo os vendedores, a atividade ainda sustenta produtores de leite, pimenta, queijos e trabalhadores informais que abastecem os estoques. O receio é de que a transferência para outra área, distante da pista, afaste o público formado majoritariamente por motoristas em trânsito.

Para tentar preservar os pontos de venda, vereadores de Campo Grande devem votar um projeto de lei que declara as barracas patrimônio histórico e cultural de Anhanduí. A proposta reconhece a relevância econômica e social do comércio para o distrito e busca impedir a remoção durante a execução das obras. Caso o tombamento seja aprovado, qualquer alteração na localização dependerá de autorização específica dos órgãos de patrimônio.

Durante a audiência, comerciantes relataram que 100% da renda familiar depende das vendas na rodovia. Eles argumentam que carretas e veículos de passeio realizam paradas rápidas apenas porque as bancas estão posicionadas em sequência ao longo do acostamento, facilitando o acesso sem desvios. A possibilidade de realocar as estruturas para um centro comercial fora da BR-163, hipótese cogitada em discussões preliminares, foi rejeitada pela maioria dos presentes.

Vendedora há vários anos, Claudete Soares da Silva defendeu a manutenção dos pontos no mesmo local, afirmando que motoristas de transporte de carga não ingressariam em vias secundárias para comprar produtos regionais. Para ela, a mudança eliminaria o fluxo de clientes que sustenta o negócio. Eronildes Machado de Oliveira, responsável por uma barraca assumida há dois anos, acrescentou que a família depende exclusivamente da movimentação gerada pelo tráfego na rodovia.

Além do impacto econômico, participantes levantaram preocupações quanto à segurança viária. Segundo moradores, a presença das barracas contribui para reduzir a velocidade dos veículos no trecho urbano, pois condutores diminuem o ritmo para estacionar. A avaliação é que, sem os pontos de venda, a pista retificada e duplicada poderia incentivar velocidades mais altas, elevando o risco de acidentes dentro do distrito.

A Motiva Pantanal não enviou representantes à reunião. Em documento entregue previamente à Câmara, a empresa informou que ainda realiza estudos técnicos sobre o traçado definitivo da duplicação e sobre possíveis interferências na comunidade. O texto assegura que as reivindicações apresentadas na audiência serão analisadas e respondidas formalmente depois da conclusão dos levantamentos de engenharia e meio ambiente.

A BR-163 é considerada via estratégica para o escoamento de grãos, carne e derivados agrícolas de Mato Grosso do Sul, conectando o interior do estado a portos e centros consumidores. A duplicação pretende aumentar a capacidade de tráfego, reduzir o tempo de viagem e aprimorar a segurança em longos trechos. Em Anhanduí, porém, a obra expõe o conflito entre a expansão da infraestrutura rodoviária e a sobrevivência de um comércio que se consolidou às margens da estrada.

Vereadores presentes à audiência afirmaram que irão encaminhar à concessionária um relatório com as demandas da comunidade, incluindo solicitação de alternativas que preservem a atividade econômica local. Entre as sugestões discutidas estão a permanência das barracas, ajustes no projeto para garantir acessos seguros e compensações caso alguma estrutura precise ser removida.

Enquanto o processo legislativo avança, comerciantes planejam manter mobilização em defesa dos pontos de venda. Eles pretendem acompanhar as sessões da Câmara que tratarão do tombamento e, se necessário, buscar apoio de órgãos estaduais de cultura e patrimônio. Moradores também estudam acionar entidades de classe ligadas ao turismo regional, argumentando que a comercialização de produtos artesanais às margens da rodovia atrai visitantes e divulga a culinária sul-mato-grossense.

Até a conclusão dos estudos da Motiva Pantanal, não há data definida para o início das intervenções físicas no perímetro urbano de Anhanduí. A incerteza, no entanto, já afeta o planejamento dos vendedores, que evitam investir em ampliações ou reformas enquanto não houver decisão oficial sobre o futuro das barracas. Para eles, a duplicação da BR-163 representa tanto uma oportunidade de melhoria viária quanto uma ameaça direta ao sustento de dezenas de famílias.

Isso vai fechar em 35 segundos