A Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande iniciou um projeto piloto de teleconsultoria assíncrona em endocrinologia, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A proposta busca qualificar o atendimento prestado na Atenção Primária e diminuir o tempo de espera por vagas com especialistas, sobretudo para usuários com diabetes, distúrbios da tireoide e obesidade.
No modelo adotado, o profissional da Atenção Primária registra, em uma plataforma digital, o histórico e os dados clínicos do paciente. O material é analisado por um endocrinologista, que devolve orientações ao médico solicitante sem a necessidade de consulta presencial nem videoconferência em tempo real. O formato assíncrono, segundo a coordenação do projeto, facilita a organização da fila de encaminhamentos, amplia o suporte técnico ao médico da unidade de origem e permite que muitos casos sejam resolvidos no próprio primeiro nível de atenção.
O teste abrangerá as 74 Unidades de Saúde da Família (USF) de Campo Grande. A expectativa da gestão municipal é fortalecer a capacidade de resposta da rede, qualificando os pedidos de referência que precisam realmente ser enviados às especialidades e, ao mesmo tempo, garantindo acompanhamento adequado a quem pode permanecer na Atenção Primária. A iniciativa não demandará novos investimentos em infraestrutura: serão utilizados equipamentos, sistemas e equipes já existentes na estrutura municipal, estadual e da Fiocruz, com apoio técnico da UFSC.
Experiências anteriores motivaram a escolha do modelo. Relatório apresentado pela UFSC mostra que, em Santa Catarina, municípios que adotaram a teleconsultoria em endocrinologia conseguiram reduzir em até 50% as filas para a especialidade. Em situações específicas, esperas superiores a dois anos caíram para aproximadamente um mês. Apenas em 2023, mais de 110 mil teleconsultorias foram realizadas naquele estado, e metade dos casos foi solucionada na própria Atenção Básica, liberando vagas ambulatoriais para usuários com necessidade efetiva de avaliação presencial.
Para Campo Grande, o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, avalia que a telessaúde em endocrinologia se soma a outras ferramentas digitais já implantadas e contribui para organizar o fluxo assistencial. Ao proporcionar orientações rápidas ao médico de família, a rede pretende garantir diagnóstico precoce, início de tratamento adequado e acompanhamento contínuo, evitando complicações que normalmente sobrecarregam o nível hospitalar.
No âmbito estadual, o titular da Secretaria de Estado de Saúde, Maurício Simões, informou que a capital servirá como base para a futura expansão do serviço aos 79 municípios de Mato Grosso do Sul. A capacitação dos profissionais da Atenção Primária já está em andamento, e o início efetivo da plataforma está previsto para ainda em março, dentro do cronograma pactuado entre as secretarias, a Fiocruz e a UFSC.
A gerente das Ações Estratégicas na Atenção Primária da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), Glória Araújo, reforça que a principal mudança será a padronização do processo de encaminhamento. A teleconsultoria, destaca ela, possibilita ao médico assistente compartilhar exames, questionar condutas e receber retorno com base em protocolos atualizados, reduzindo a necessidade de deslocamento do paciente e economizando tempo no sistema.
Campo Grande já possui histórico de uso de soluções de telessaúde em outras áreas. A rede municipal conta com teleinterconsultoria em cardiologia, angiologia e psicologia; serviços de telepsicologia e telefisioterapia; além de TeleECG e teleretinografia. Desde a criação do Núcleo Municipal de Telessaúde, foram registrados mais de 7.500 atendimentos remotos, número que, segundo a secretaria, confirma a viabilidade de expandir o modelo de assistência híbrida.
De acordo com técnicos envolvidos no projeto, os resultados serão acompanhados por meio de indicadores específicos, como redução do tempo médio de espera, proporção de casos resolvidos na Atenção Primária e satisfação dos profissionais. A UFSC ficará responsável por apoiar a análise dos dados, garantindo a avaliação contínua do impacto e a possibilidade de ajustes operacionais ao longo do piloto.
Além de descongestionar a fila de endocrinologia, a estratégia pode servir de referência para outras especialidades com grande procura no Sistema Único de Saúde. Ao final da fase de testes, os parceiros pretendem elaborar um protocolo de expansão que inclua cronograma, estimativa de demandas e definição de responsabilidades entre Estado, municípios e instituições de pesquisa.
Com a implementação, Campo Grande reforça a tendência de incorporar ferramentas digitais para otimizar recursos disponíveis, melhorar o acesso a consultas especializadas e aumentar a resolutividade da Atenção Primária. Caso os resultados observados em Santa Catarina se repitam, a teleconsultoria assíncrona pode tornar-se componente permanente da rede estadual de saúde, apoiando a oferta de cuidado integral e contínuo aos portadores de doenças endócrinas.








