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Caminhoneiros articulam paralisação nacional em meio a escalada do preço do diesel

Lideranças de caminhoneiros de diversos estados iniciaram, nesta semana, a organização de uma nova paralisação nacional motivada pelo avanço do preço do diesel e pela percepção de que as medidas adotadas pelo governo federal não contiveram os custos de operação do transporte rodoviário de cargas.

A articulação ganhou impulso após uma reunião realizada na segunda-feira, 16, no Porto de Santos (SP). O encontro, considerado a primeira assembleia nacional do grupo, reuniu transportadores autônomos, cooperativas e representantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul. Segundo participantes, a maioria das lideranças presentes se posicionou a favor da greve, ainda sem data definida, mas prevista para as próximas semanas.

Wallace Landim, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), afirmou que o movimento pretende cumprir todos os trâmites legais antes de convocar oficialmente a paralisação. Até lá, o plano é ampliar o diálogo com outras entidades, sindicatos regionais e transportadoras para garantir adesão em âmbito nacional.

A possível greve envolve tanto motoristas autônomos quanto empregados de empresas, o que amplia o alcance do protesto. Somente na Baixada Santista, um sindicato local representa cerca de 5 mil profissionais, enquanto cooperativas regionais reúnem aproximadamente 10 mil caminhoneiros. A Abrava, por sua vez, calcula representar 35 mil motoristas em todo o país.

O principal motivo de insatisfação é o aumento recente do diesel. De acordo com o painel de preços da ValeCard, o diesel S-10 acumulou alta de 18,86% entre 28 de fevereiro e meados de abril, período marcado pela intensificação do conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. No mesmo intervalo, o diesel comum subiu mais de 22%. A gasolina registrou acréscimo de cerca de 10% e o etanol avançou quase 9%.

A volatilidade afeta toda a cadeia logística. Segundo a ValeCard, que monitora abastecimentos em 25 mil postos, além da oscilação de preços já há registros de restrições pontuais no fornecimento de combustível, com estabelecimentos impondo cotas de 200 a 300 litros por caminhão. Para rotas de longa distância, essa limitação torna as viagens economicamente inviáveis.

Entre os motoristas, são frequentes relatos de forte variação de preço em curtas distâncias. Nas vias de acesso ao Porto de Santos, por exemplo, foram observados valores de R$ 6,29 para o litro do diesel, diferença que os caminhoneiros atribuem à falta de fiscalização sobre distribuidoras e revendas.

O aumento do combustível já repercute em setores produtivos, especialmente no agronegócio. Produtores relatam impacto nos custos de colheita da soja e no plantio do milho safrinha, além de pressões adicionais sobre fretes de insumos e mercadorias. Com aproximadamente 790 mil caminhoneiros autônomos e 750 mil motoristas contratados no país, uma paralisação ampla pode comprometer o abastecimento de alimentos, elevar a inflação e afetar a indústria.

A categoria também critica a efetividade de medidas anunciadas pelo governo federal. Em 12 de março, o Executivo zerou temporariamente as alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel e concedeu subsídios a produtores e importadores, com a estimativa de reduzir até R$ 0,64 por litro. No dia seguinte, porém, a Petrobrás reajustou o combustível nas refinarias em R$ 0,38 por litro, elevação de 11,6% para o diesel A, o que, segundo os caminhoneiros, neutralizou o alívio tributário.

O governo informou que pretende intensificar a fiscalização da cadeia de combustíveis por meio da integração de dados da Receita Federal e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para coibir distorções de preços. Apesar disso, representantes da categoria demonstram ceticismo quanto à eficiência dessas ações.

Outro ponto reivindicado é o cumprimento da Lei 13.703/2018, que institui o piso mínimo do frete. Caminhoneiros relatam falta de fiscalização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o que permitiria a contratação de serviços abaixo do valor regulamentado. Entre as exigências adicionais estão isenção de pedágio para caminhões vazios e maior rigor contra práticas consideradas abusivas em postos e distribuidoras.

Paralelamente, pequenas paralisações já ocorrem em alguns estados, organizadas por sindicatos locais e grupos independentes. Essas ações são vistas como indicativo de que a mobilização pode rapidamente ganhar escala nacional caso não haja acordo.

As lideranças planejam novas reuniões nos próximos dias para avaliar o cenário. Se houver consenso, a data da greve será divulgada à categoria e à sociedade com antecedência. Segundo Wallace Landim, a paralisação é tratada como último recurso para preservar a viabilidade econômica dos profissionais diante da alta do diesel e da dificuldade em repassar custos ao frete.

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