Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, tornou-se o centro de um dos maiores treinamentos militares de ajuda humanitária das Américas. Pela primeira vez no Brasil, a Base Aérea local sedia a Operação Cooperación X1, exercício do Sistema de Cooperação entre as Forças Aéreas Americanas (SICOFAA) destinado a aprimorar ações de combate a incêndios florestais, evacuação aeromédica, busca, salvamento e outras atividades de suporte em calamidades naturais.
O treinamento reúne aproximadamente 1.200 militares, dos quais cerca de 200 provenientes de 13 nações convidadas: Argentina, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai. Ao todo, 18 aeronaves participam das missões simuladas, que ocorrerão até meados de julho em diferentes pontos estratégicos do estado.
Infraestrutura e escolha da sede
A capital sul-mato-grossense foi selecionada por concentrar dois fatores considerados decisivos. O primeiro é o histórico recente de grandes queimadas no Pantanal, bioma que se mantém sob risco permanente de incêndios de grande proporção. O segundo refere-se à estrutura da Base Aérea de Campo Grande (BACG), capaz de abrigar operações simultâneas de múltiplos esquadrões sem interferir na aviação comercial. Para garantir a segurança dos voos regulares, foram criadas áreas de tráfego temporariamente restritas e amplamente divulgadas à comunidade aeronáutica.
Objetivos do exercício
De acordo com a coordenação, a proposta principal da Cooperación X1 é reduzir o tempo de resposta em situações de crise. Além de atividades aéreas, o programa inclui padronização de protocolos, integração de sistemas de comunicação e planejamento conjunto entre as diversas forças participantes. A meta é que, diante de um desastre real, aeronaves, equipes de resgate e cargas de ajuda cheguem ao local afetado com o mínimo de atraso possível.
O treinamento também busca fortalecer a interoperabilidade entre as nações integrantes do SICOFAA. Diferentes doutrinas, idiomas e capacidades logísticas são tratadas como desafios a serem superados para formar uma força multinacional apta a atuar de forma uniforme. O ciclo de preparação teve início há cerca de 18 meses, englobando fases de concepção, planejamento detalhado, execução, avaliação de resultados e divulgação de lições aprendidas.
Cenários e áreas de operação
Para garantir realismo, as missões ocorrem em regiões que apresentam obstáculos semelhantes aos de emergências reais. Entre os locais selecionados estão áreas próximas à Fazenda Pantanal-Tech, à Serra do Rio Negro e à Serra da Bodoquena, além de pontos de apoio logístico montados especialmente para o exercício. Os voos incluem lançamentos de água a partir de aeronaves de asa fixa, transporte de equipes médicas e evacuação de vítimas simuladas.
Experiência brasileira recente
Parte das táticas aplicadas em Campo Grande foi aperfeiçoada durante a Operação Pantanal, conduzida em 2024 para debelar incêndios no bioma. Na ocasião, as Forças Armadas brasileiras testaram modelos de comando conjunto que agora servem de base para a organização da Cooperación X1. As lições abordam desde a divisão de responsabilidades entre Marinha, Exército e Aeronáutica até os impactos das condições ambientais no resultado final das missões.
Logística e mobilização
O volume de equipamentos transportados para a capital de Mato Grosso do Sul exemplifica a complexidade do exercício. Materiais de comunicação, sistemas de comando móvel, hospitais de campanha e suprimentos técnicos foram enviados de diferentes regiões do país. Segundo a coordenação, a movimentação comprova a capacidade de mobilizar recursos em larga escala sempre que houver necessidade real de socorro à população brasileira ou de nações vizinhas.
Gestão do espaço aéreo
Apesar do intenso fluxo de decolagens e pousos militares, a operação foi planejada para não interferir na malha aérea comercial. Rotas exclusivas, horários específicos e altitudes segregadas foram definidos previamente, evitando impactos para passageiros e companhias que operam no Aeroporto Internacional de Campo Grande.
Protagonismo regional
Autoridades da Força Aérea Brasileira afirmam que o país consolida, com o exercício, posição de liderança em missões humanitárias no continente. A mobilidade estratégica demonstrada em operações no Rio Grande do Sul e no Pantanal em 2024, aliada à expertise em busca, salvamento e transporte de grande porte, reforça a capacidade de apoiar nações vizinhas em situações de emergência.
A Operação Cooperación X1 permanecerá ativa por duas semanas. Ao término, relatórios técnicos apontarão pontos fortes, fragilidades e recomendações para edições futuras. Os dados serão compartilhados entre todos os participantes, contribuindo para a construção de procedimentos comuns e para a redução de riscos em desastres naturais que atinjam qualquer país do hemisfério ocidental.








