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Debate na Câmara de Campo Grande marca concessão de título de Visitante Ilustre a Lula

A sessão ordinária desta quinta-feira, 19 de outubro, na Câmara Municipal de Campo Grande, registrou embates verbais entre vereadores durante a votação que concedeu o título de Visitante Ilustre ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A honraria antecede a passagem do chefe do Executivo federal pela capital sul-mato-grossense, prevista para domingo, quando ele participará de um painel vinculado à 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (COP15/CMS).

Proposto pelos vereadores Landmark (PT) e Jean Ferreira (PT), o reconhecimento também foi estendido à ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Embora a matéria tenha sido aprovada, a discussão escancarou divergências ideológicas entre parlamentares aliados ao governo federal e representantes da oposição.

A vereadora Ana Portela (PL) posicionou-se contrariamente ao projeto e utilizou a tribuna para classificar o presidente como “bandido”, recomendando que os moradores “fechassem suas casas” durante a visita presidencial. A declaração gerou reações imediatas no plenário, interrompeu temporariamente a votação e levou a acusações de desrespeito institucional.

Também integrante do PL, o vereador André Salineiro reforçou as críticas ao afirmar que Lula seria “persona non grata” em Campo Grande. Na mesma intervenção, estendeu as críticas à ministra Marina Silva, argumentando que, segundo ele, a chefe da pasta ambiental teria se mantido silenciosa em relação ao desmatamento na Amazônia após assumir o cargo no atual governo.

Em defesa da homenagem, Jean Ferreira (PT) destacou que o presidente foi eleito democraticamente e que a cidade receberá um evento de projeção internacional, o que justificaria a concessão do título. Para o autor da proposta, diferenças políticas não podem ultrapassar “o limite do respeito institucional”.

O presidente da Câmara, vereador Papy (PSDB), interveio para advertir sobre o uso de termos ofensivos. A Mesa Diretora, segundo ele, deliberará pela retirada da palavra considerada injuriosa dos registros oficiais, com base no Regimento Interno. Mesmo após o anúncio, Ana Portela manteve a posição de não recuar das afirmações, alegando representar parcela do eleitorado que não reconhece a legitimidade da homenagem.

A polêmica ocorreu em meio aos preparativos para a COP15/CMS, que reunirá autoridades e especialistas de diferentes países em discussões ambientais. A ida de Lula a Campo Grande deve concentrar a atenção do noticiário nacional no domingo, data em que o presidente participará de um painel preliminar à abertura oficial do encontro.

Além da discussão envolvendo o presidente e a ministra, a pauta da sessão contemplou outras votações sobre títulos de Visitante Ilustre. Receberam o mesmo reconhecimento o ex-jogador de futebol Zé Roberto, que atuou por clubes brasileiros e europeus, e o empresário Roberto Justus, conhecido por participação no setor de comunicação e programas televisivos.

A concessão de títulos honoríficos em Campo Grande depende de maioria simples entre os 29 vereadores. No caso de Lula e Marina, a base governista contou com o apoio de parlamentares de legendas alinhadas ao Executivo, enquanto integrantes do PL e de siglas oposicionistas registraram voto contrário ou se abstiveram.

Durante a sessão, a tensão se refletiu não apenas nas falas, mas também em manifestações do público que acompanhava a votação. Funcionários precisaram reforçar a ordem para que o debate prosseguisse sem interrupções externas. Não houve, porém, incidentes físicos ou necessidade de suspensão definitiva dos trabalhos.

Com a aprovação, o título deverá ser entregue em agenda oficial, ainda não divulgada pela Presidência da República nem pela Mesa Diretora da Câmara. A expectativa é que a cerimônia ocorra durante a estada do presidente em Campo Grande ou em data a ser definida posteriormente.

O confronto verbal desta quinta-feira reitera um ambiente de polarização política que tem se reproduzido em parlamentos estaduais e municipais desde as eleições de 2022. Em Campo Grande, a discordância sobre homenagens protocolares evidenciou a dificuldade de consenso mesmo em matérias tradicionalmente simbólicas, como títulos honoríficos a autoridades nacionais.

Encerrada a votação, os vereadores seguiram com a apreciação de projetos constantes da ordem do dia. Ainda assim, parlamentares da oposição anunciaram que pretendem recorrer aos canais institucionais da Casa para registrar protesto contra a decisão, enquanto a bancada governista avaliou a aprovação como reconhecimento ao cargo máximo da República e ao papel da ministra na pauta ambiental.

O itinerário do presidente, confirmado pelo Palácio do Planalto, inclui participação em debates técnicos sobre conservação de espécies migratórias e reuniões com representantes locais. Embora não haja previsão de compromisso direto na Câmara Municipal, a possibilidade de entrega do título durante a visita permanece em discussão entre o Legislativo municipal e a equipe de protocolo do governo federal.

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