A presença de solos arenosos e a conversão de pastagens degradadas para usos agrícolas mais intensivos recolocaram a pauta da diversificação produtiva no centro das discussões em Mato Grosso do Sul. O tema ganhará espaço em 27 de março, durante uma jornada técnica da Expo Canas, em Nova Alvorada do Sul, quando pesquisadores, produtores e indústria debaterão caminhos para reduzir a dependência de soja, milho e cana-de-açúcar em regiões de menor aptidão agronômica.
Estado lidera potencial para grãos no programa federal
De acordo com César José da Silva, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, o assunto está diretamente ligado ao Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas. No escopo da iniciativa, Mato Grosso do Sul ocupa a segunda colocação em área passível de conversão para sistemas produtivos mais intensivos e detém a primeira posição quando o recorte se restringe a terras aptas à produção de grãos.
A Embrapa avalia que parte desses hectares pode receber florestas comerciais, parte pode ampliar as plantações de cana e outra parcela pode migrar para a agricultura de grãos. A escolha depende de variáveis como teor de argila, altitude, regime hídrico e temperatura. Em ambientes de baixa fertilidade, elevada amplitude térmica e maior risco de veranicos, o plantio de soja e milho perde rentabilidade, abrindo espaço para culturas mais resilientes.
Amendoim desponta na primeira safra
Nesse contexto, o amendoim tem avançado como opção de primeira safra. Segundo Silva, o estado já figura como segundo maior produtor nacional, atrás apenas de São Paulo. O desempenho reflete a adaptação da leguminosa a solos com menor teor de argila e a possibilidade de rotação com culturas tradicionais, contribuindo para a fixação biológica de nitrogênio e para o equilíbrio fitossanitário das lavouras.
Sorgo e milheto ganham terreno na segunda safra
Na janela de inverno, o milho ainda lidera a preferência dos produtores sul-mato-grossenses, mas a cultura encontra limitações em áreas arenosas, onde os níveis de umidade e nutrientes comprometem a produtividade. Nessas condições, o sorgo passou a ocupar um espaço intermediário. A gramínea tolera melhor o déficit hídrico, suporta temperaturas mais altas e oferece rendimento satisfatório mesmo quando o plantio ocorre em datas mais tardias.
O milheto, por sua vez, tradicionalmente utilizado como planta de cobertura, começa a ser inserido como alternativa comercial. Além de produzir grãos destinados às cadeias de ração animal e etanol, a espécie contribui para a formação de palhada, elevação da matéria orgânica e proteção do solo contra erosão, características relevantes em terrenos de textura arenosa.
Industrialização estimula demanda por cereais
A mudança no perfil das lavouras é acompanhada por transformações na indústria. Atualmente, Mato Grosso do Sul abriga três usinas de etanol à base de cereais, com foco principal no milho. Segundo o pesquisador da Embrapa, o estado deixou de ser mero exportador de grãos para comercializar etanol, DDG e DDGS, coprodutos empregados na nutrição animal. A produção local reduz custos logísticos, agrega valor e contribui para suprir o mercado interno de biocombustíveis.
O avanço de sorgo e milheto nesse circuito responde tanto às limitações agronômicas quanto à demanda crescente da indústria. Em vez de insistir no milho em janelas de alto risco, parte dos produtores passou a optar por espécies mais adaptadas, assegurando matéria-prima para as usinas e diminuindo perdas de safra relacionadas ao estresse hídrico.
Gestão de risco e uso pleno da área cultivada
A estratégia de diversificação apoia‐se na distribuição dos riscos produtivos ao longo do ano agrícola. Em áreas com melhor fertilidade, o milho permanece na segunda safra. Onde as limitações aumentam, o sorgo surge como alternativa viável, e, em ambientes ainda mais restritivos, o milheto atende às exigências mínimas de solo e clima. Esse escalonamento permite prolongar o período de ocupação das áreas após a colheita da soja, melhorar a rentabilidade média e favorecer a sustentabilidade do sistema produtivo.
Ao combinar culturas comerciais, cobertura vegetal, bioenergia e insumos para alimentação animal, Mato Grosso do Sul busca um modelo de expansão agrícola compatível com solos arenosos sem abrir mão de escala. A jornada técnica da Expo Canas reforça esse esforço ao incluir, em um evento tradicionalmente voltado ao setor sucroenergético, debates sobre sorgo, milheto e amendoim como peças de uma nova matriz produtiva.
Com pesquisas em andamento, participação da indústria e o respaldo de programas federais, o estado projeta ampliar a conversão de pastagens degradadas, reduzir a pressão sobre áreas de maior fragilidade e consolidar um portfólio de culturas capaz de enfrentar oscilações de mercado, clima e logística. A pauta, que já se reflete nas lavouras, promete ganhar fôlego a partir de 27 de março, quando produtores e especialistas se reúnem em Nova Alvorada do Sul em busca de rotas mais eficientes para os solos arenosos sul-mato-grossenses.








