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Mulheres do MST bloqueiam BR-163 em Campo Grande para cobrar avanço da reforma agrária

Mulheres ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) interromperam, por volta das 5h desta sexta-feira, 20 de março, o tráfego em um trecho da BR-163, em Campo Grande (MS). A mobilização, concentrada nos quilômetros 463 a 466 da pista expressa no sentido sul, saída para São Paulo, faz parte de uma série de atos programados pelo movimento durante o mês de março, período em que trabalhadoras rurais assumem a linha de frente das ações políticas.

De acordo com o MST, o bloqueio tem como objetivo pressionar os governos federal e estadual a acelerar medidas relacionadas à reforma agrária em Mato Grosso do Sul. Entre as reivindicações estão a retomada de processos de assentamento paralisados, a regularização fundiária de famílias acampadas, a implementação de políticas públicas de produção e acesso à moradia, além de investimentos em infraestrutura que garantam condições dignas de trabalho no campo.

A concessionária Motiva Pantanal, administradora da rodovia, confirmou a interdição no site oficial e orientou motoristas a buscar rotas alternativas enquanto durasse o protesto. Equipes da empresa foram deslocadas para monitorar o fluxo de veículos e fornecer informações aos condutores. Até o início da manhã, não havia registro de confrontos nem de ocorrência grave no local, mas longas filas se formaram nos dois sentidos da via.

O ato integra a agenda de mobilizações denominada pelo MST como “Março de Lutas das Mulheres”, que anualmente destaca o papel feminino na defesa da reforma agrária, da produção de alimentos e da justiça social. Segundo a organização, concentrar em mulheres a responsabilidade pela condução das manifestações visa ressaltar a participação delas em todas as etapas de produção nas áreas sob disputa ou já assentadas, do plantio à comercialização.

Além de reivindicar a ampliação de assentamentos, as manifestantes ressaltam a importância de assistência técnica, crédito agrícola e programas de escoamento da produção. Representantes do movimento afirmam que a demora no atendimento às solicitações junto aos órgãos competentes compromete o sustento de centenas de famílias que aguardam regularização, muitas delas chefiadas por mulheres.

A mobilização desta sexta-feira também antecipa a Jornada de Lutas “Abril Vermelho”, tradicional período de protestos do MST em memória dos trabalhadores mortos em conflitos pela terra e em defesa de políticas públicas para o setor. Historicamente, o Abril Vermelho reúne atos simultâneos em diversos estados, ocupações de prédios públicos e bloqueios de rodovias com intuito de chamar a atenção para a pauta agrária.

Em nota, o movimento afirmou que a interrupção da BR-163 será mantida até que representantes dos governos apresentem “respostas concretas” às demandas protocoladas em reuniões anteriores. O MST argumenta que, apesar de compromissos firmados em 2023, pouca evolução foi registrada nos processos de desapropriação de áreas consideradas improdutivas ou em conflito.

Mato Grosso do Sul possui diversos acampamentos aguardando definição jurídica, e os manifestantes alegam que a ausência de solução gera tensão no campo, expondo famílias a situações de insegurança alimentar e vulnerabilidade social. Segundo estimativas internas do MST, o estado tem várias áreas já vistoriadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) com potencial para assentamento, mas sem previsão de homologação.

A escolha da BR-163 para o protesto foi justificada pelo fluxo intenso de veículos na rota que liga a região centro-oeste ao sudeste, fator que amplia a visibilidade da manifestação. A rodovia é um dos principais corredores de escoamento da produção de grãos do estado e, por isso, bloqueios no local costumam provocar impacto logístico imediato.

Ao longo da manhã, grupos de manifestantes distribuíram panfletos explicando a pauta e dialogaram com motoristas parados na fila. Algumas faixas exibidas no local pediam “terra para produzir alimentos saudáveis” e “políticas de crédito para mulheres assentadas”.

Até o fim da manhã, não havia comunicado oficial do governo estadual ou do Incra sobre possíveis negociações. A Polícia Rodoviária Federal acompanhou a mobilização, mantendo viaturas nas proximidades para organizar desvios e garantir a segurança dos usuários da rodovia. Não foram divulgados dados sobre a extensão do congestionamento nem previsão de liberação da pista.

O MST informou que, caso não haja avanço nas tratativas, novos atos poderão ser realizados nas próximas semanas em outros pontos estratégicos de Mato Grosso do Sul. As lideranças femininas destacam que permanecerão mobilizadas durante todo o mês de março, mantendo assembleias nos acampamentos para avaliar os próximos passos.

Com o protesto, o movimento busca intensificar a pressão em um momento que considera decisivo para destravar a política de reforma agrária no estado. Até que se alcance um acordo, as manifestantes reforçam a disposição de manter ações de impacto, alegando que apenas a ocupação de espaços públicos e a interrupção de rodovias foram capazes, historicamente, de trazer avanços concretos para a pauta.

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