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Estudo detecta pela primeira vez vírus da gripe aviária H5N2 em ave silvestre no Pantanal

Um estudo publicado na revista Scientific Reports, pertencente ao grupo Nature, registrou a primeira detecção do subtipo H5N2 do vírus da influenza aviária em uma ave silvestre no Pantanal brasileiro.

A pesquisa, coordenada pela virologista Tayane Bruna Soares Magalhães, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), foi divulgada no domingo, 22, data que antecedeu a abertura da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), iniciada em 23 de outubro em Campo Grande (MS). O artigo apresenta evidências inéditas de circulação do subtipo no bioma, considerado a maior planície inundável do planeta.

O H5N2 integra a família de vírus influenza A. A sigla “H5” refere-se à hemaglutinina e “N2” à neuraminidase, proteínas que determinam a classificação dos subtipos. Diferentemente do H5N1 de alta patogenicidade, notificado no Brasil desde 2023, o H5N2 encontrado no Pantanal possui baixa patogenicidade (LPAIV). Vírus dessa categoria raramente provocam doença grave ou mortalidade expressiva em aves silvestres, mas podem atuar como precursores de variantes mais agressivas.

Entre 2021 e 2023, os pesquisadores coletaram 1.108 amostras de orofaringe e cloaca provenientes de 157 espécies de aves em três municípios mato-grossenses: Poconé, Cuiabá e Santo Antônio do Leverger. O procedimento seguiu protocolos de vigilância sanitária e exigiu a captura temporária dos animais para posterior liberação em seu habitat.

O resultado positivo ocorreu em uma batuíra-de-coleira (Charadrius collaris) capturada na Baía de Chacororé, em agosto de 2023. Segundo o artigo, trata-se do primeiro registro confirmado de uma ave infectada por influenza aviária no Pantanal. A amostra passou por isolamento viral em laboratório de biossegurança e teve o genoma completo sequenciado.

A análise genômica revelou elevada similaridade com uma cepa de H5N2 identificada em patos na Colômbia em 2011, além de vinculações filogenéticas a vírus documentados na América do Norte e na Ásia. Esses achados sugerem rotas intercontinentais de dispersão, possivelmente mediadas por aves migratórias que utilizam o Pantanal como ponto de parada durante deslocamentos sazonais.

O Pantanal recebe anualmente milhares de aves provenientes da América do Norte, Central e do Cone Sul. O regime de inundações, aliado à abundância de alimento e áreas de descanso, transforma o bioma em um corredor ecológico propício ao encontro de espécies com diferentes origens geográficas. Esse cenário favorece a troca e a recirculação de patógenos, inclusive dos vírus influenza.

Além da migração, o estudo levanta a hipótese de que espécies residentes funcionem como reservatórios locais, mantendo o vírus ativo entre ciclos migratórios. A permanência do subtipo H5N2 no ambiente dependeria, nesse caso, da interação entre aves visitantes e populações estabelecidas na região.

Os pesquisadores também examinaram marcadores moleculares associados à adaptação do vírus a mamíferos, como mutações nos genes HA e PB2. Nenhuma alteração compatível com essa adaptação foi encontrada. Não houve registro de mortalidade ou sinais clínicos de infecção em aves silvestres ou domésticas relacionados ao evento descrito.

Para a comunidade científica, a detecção do H5N2 no Pantanal preenche uma lacuna de conhecimento sobre as rotas sul-americanas da gripe aviária e reforça a necessidade de vigilância contínua em áreas úmidas estratégicas. O monitoramento de subtipos de baixa patogenicidade é considerado essencial para antecipar possíveis recombinações genéticas que possam gerar linhagens mais virulentas.

A divulgação do trabalho na véspera da COP15 coloca o tema da saúde de aves migratórias no centro das discussões internacionais sobre conservação. A conferência reúne representantes de mais de 130 países para definir diretrizes de proteção a espécies que cruzam fronteiras naturais, muitas delas potenciais vetores de agentes infecciosos.

Os autores recomendam a expansão das redes de amostragem no Pantanal e em outras zonas úmidas brasileiras, além de parcerias com países das rotas migratórias, para formar um sistema integrado de alerta precoce. A estratégia busca reduzir impactos na avifauna, proteger a produção avícola e, indiretamente, minimizar riscos à saúde pública.

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