O ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, apresentou-se à Polícia Civil na manhã desta terça-feira (24) depois de atirar em Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, dentro de uma residência localizada no bairro Jardim dos Estados, região nobre da capital sul-mato-grossense. A vítima, que havia arrematado o imóvel em leilão judicial, não resistiu aos ferimentos e morreu no local. O caso foi registrado como homicídio e é investigado pela Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) Centro.
Segundo relato prestado por Bernal, o sistema de segurança da casa indicou a presença de três homens no interior da propriedade. Após perceber a suposta invasão, o ex-prefeito afirmou ter efetuado disparos em direção aos intrusos em alegada legítima defesa. Depois dos tiros, o próprio autor acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e se encaminhou espontaneamente à Depac, onde ficou à disposição dos investigadores para prestar depoimento.
Equipes do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul foram deslocadas até o endereço. Os socorristas constataram que Mazzini foi atingido por dois disparos no tórax, apresentando três perfurações no corpo. A vítima recebeu manobras de reanimação por aproximadamente 25 minutos, mas não respondeu ao atendimento. O corpo ficou caído na varanda da residência, que, de acordo com a polícia, estava desocupada no momento do confronto.
Na cena do crime, peritos encontraram sinais de arrombamento no portão da frente. Um buraco no ponto onde ficava a fechadura indicava rompimento do mecanismo, provável via de acesso dos envolvidos. Do lado de fora, o automóvel de Mazzini permanecia estacionado com a porta destravada; no interior do veículo, policiais recolheram uma notificação extrajudicial datada de fevereiro deste ano. O documento exigia que Bernal desocupasse o imóvel arrematado pela vítima.
Informações colhidas junto a pessoas que residem nas proximidades apontam que, em dezembro do ano passado, o ex-prefeito teria mostrado uma arma de fogo a um motorista que estacionara diante da garagem, comentando que poderia atirar caso o veículo permanecesse ali. Esse episódio, embora não faça parte do inquérito principal, foi relatado aos investigadores como possível indício de conflito pré-existente envolvendo o proprietário da residência.
O imóvel em questão, avaliado em R$ 3.787.057,00, foi adquirido por Mazzini por R$ 2.413.545,80 em leilão judicial. Conforme apurado, a regularização cartorial estava em fase final. Na manhã do homicídio, Roberto chegou acompanhado de um chaveiro com a intenção de tomar posse da casa. A sequência dos fatos que levou ao encontro armado entre comprador e antigo morador ainda é reconstituída pela Polícia Civil com base em depoimentos, imagens de câmeras de segurança e laudos periciais.
Além da disputa pela posse do imóvel, Bernal enfrenta outros processos relacionados a obrigações financeiras. Em 2023, a dívida de IPTU referente aos anos de 2018 e 2019 superava R$ 80 mil. A prefeitura ajuizou uma ação de cobrança em 2021, mas não conseguiu notificar o ex-gestor no endereço oficial. Já em 2025, decisão da Justiça de Mato Grosso do Sul determinou seu despejo de uma fazenda em Sidrolândia devido ao não pagamento de arrendamento firmado em 2019, segundo o proprietário rural.
A trajetória política de Alcides Bernal também possui episódios conturbados. Ele assumiu a prefeitura de Campo Grande em janeiro de 2013, mas passou a ser alvo de denúncias sobre irregularidades em contratos emergenciais de coleta de lixo e merenda escolar. A Câmara Municipal instaurou procedimento de cassação, que resultou em votação contra o então prefeito: 23 dos 29 vereadores decidiram pela perda do mandato em março de 2014. Com isso, o vice Gilmar Olarte assumiu o comando do Executivo municipal imediatamente após a sessão legislativa.
Enquanto aguarda conclusões periciais e eventuais novas oitivas, a Polícia Civil analisa se os indícios sustentam a versão de legítima defesa apresentada por Bernal ou se haverá indiciamento por homicídio doloso. Testemunhas, entre elas o chaveiro que acompanhava Mazzini, devem ser ouvidas nos próximos dias. A arma utilizada foi apreendida para exame balístico, e o sistema de monitoramento interno da residência será periciado a fim de verificar a quantidade de invasores e o trajeto da vítima até a varanda onde foi encontrada.
Até o momento, não há confirmação sobre pedido de prisão preventiva ou aplicação de medidas cautelares contra o ex-prefeito. O inquérito tramita na esfera da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, que tem prazo legal para concluir as investigações e encaminhar o relatório ao Ministério Público Estadual, responsável por eventual denúncia à Justiça.









