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Consultório na Rua amplia acesso à saúde para população em situação de rua em Três Lagoas

Em Três Lagoas, um serviço itinerante criado para atender pessoas em situação de rua tem fortalecido a oferta de cuidados básicos, prevenção de doenças e encaminhamentos especializados. Implantado há aproximadamente quatro anos, o Consultório na Rua atua de forma integrada com a assistência social, garantindo atendimento contínuo e humanizado a quem enfrenta vulnerabilidade nas vias públicas ou em pontos de apoio do município.

Dados da coordenação indicam que, apenas no ano passado, 240 indivíduos foram acompanhados, dos quais 127 mulheres e 113 homens. O volume reforça a necessidade de manter equipes multidisciplinares em campo, com foco na redução de danos, na promoção da saúde e na ampliação do acesso a serviços essenciais.

A estratégia de trabalho ocorre em dois eixos complementares. O primeiro concentra-se no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), onde profissionais do Consultório na Rua comparecem semanalmente. Essa presença regular possibilita que usuários encontrem, em um espaço fixo, consultas médicas, curativos, administração de medicamentos e orientação socioassistencial.

O segundo eixo envolve uma equipe móvel que percorre diferentes pontos da cidade em uma van adaptada. A abordagem direta nas calçadas, praças e áreas de concentração permite alcançar pessoas que, por diversas razões, não buscam espontaneamente unidades de saúde. Esse formato reduz barreiras como receio de preconceito, deslocamento e falta de documentos.

A assistente social Solange de Almeida, responsável pela coordenação do Centro POP, explica que a atuação conjunta com o Consultório na Rua amplia a resolutividade dos casos. Segundo ela, o contato frequente com médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, assistentes sociais e psicólogos cria um ambiente de confiança, facilitando a adesão a tratamentos e o encaminhamento para a rede pública de saúde.

Durante as atividades no Centro POP, são realizados procedimentos semelhantes aos oferecidos em unidades básicas. A equipe aplica testes rápidos para sífilis, HIV e hepatites, solicita exames laboratoriais quando necessário e monitora sinais de doenças como tuberculose. Além disso, oferece orientações sobre higiene, prevenção de infecções e uso correto de medicamentos.

A médica Sabrina Sgarbi Rocino destaca que o serviço também identifica situações de dependência química e orienta usuários interessados em iniciar tratamento contra o álcool e outras drogas. Para isso, o grupo estabelece fluxos de encaminhamento com Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e outros equipamentos municipais.

O caráter itinerante do Consultório na Rua assegura que profissionais encontrem as pessoas no contexto em que vivem, o que favorece intervenções rápidas em casos de ferimentos, infecções cutâneas e crises de saúde aguda. Na prática, a equipe leva insumos para curativos, analgésicos, antibióticos de uso imediato e preservativos, reforçando ações de prevenção.

Entre os benefícios diretos apontados pela coordenação estão a redução de internações hospitalares por condições evitáveis, o aumento do número de diagnósticos precoces para doenças transmissíveis e a ampliação do vínculo entre população de rua e serviços públicos. Essas metas se conectam a políticas nacionais que definem a atenção primária como porta de entrada prioritária no Sistema Único de Saúde.

Para manter o serviço em funcionamento, o município articula recursos das secretarias de Saúde e Assistência Social. Essa integração garante logística para deslocamento da van, aquisição de materiais médicos, capacitação de servidores e manutenção do Centro POP como ponto de referência. A estrutura também viabiliza atividades de reinserção social, como rodas de conversa e oficinas que estimulam a autonomia dos participantes.

Muitos usuários relatam resistência inicial em procurar instituições formais devido a experiências prévias de estigma. O contato contínuo com profissionais treinados em abordagem humanizada é apontado pela equipe como fator decisivo para superar essa barreira. O atendimento fora de muros tradicionais e a escuta qualificada contribuem para a construção de novos trajetos de cuidado.

Além de benefícios individuais, a iniciativa impacta a saúde coletiva ao monitorar a circulação de doenças infectocontagiosas e ao ofertar imunizações quando disponíveis. A vigilância ativa em áreas públicas ajuda a prevenir surtos e reduz custos de internação em médio prazo, segundo avaliação interna do serviço.

Embora a maior demanda esteja concentrada no Centro POP, a rota da van é ajustada periodicamente para contemplar regiões com aumento de pessoas em situação de rua. O mapeamento é feito por meio de observação direta, informações de equipes da assistência social e relatórios da guarda municipal.

A equipe também mantém diálogo com organizações da sociedade civil, grupos religiosos e voluntários que distribuem alimentos ou roupas, buscando alinhar ações e evitar sobreposição de esforços. Essa cooperação facilita a identificação de casos graves que demandam pronto-atendimento ou internação.

Com base nos resultados alcançados, a coordenação planeja a expansão de horários e a inclusão de novos testes rápidos, dependendo da disponibilidade de insumos. Outra meta em discussão é fortalecer a oferta de vacinas para hepatite B e influenza diretamente na rua, otimizando a cobertura vacinal dessa população.

O Consultório na Rua segue ativo em Três Lagoas, com programação semanal definida e suporte das secretarias municipais. A continuidade das ações reforça o compromisso local em assegurar direitos básicos e promover dignidade a pessoas que permanecem à margem do sistema tradicional de saúde.

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