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Semana Santa eleva vendas de pescado em Campo Grande e gera reforço de estoques e equipes

A proximidade da Sexta-Feira Santa impulsionou significativamente o comércio de pescado em Campo Grande. A dois dias da data, empresas instaladas no Mercadão Municipal registram expansão de até 150% nas vendas quando comparadas a semanas comuns do ano, refletindo a manutenção do hábito de consumir peixe durante a Semana Santa por motivos religiosos e culturais.

Embora mudanças de comportamento tenham ocorrido ao longo dos anos, a prática de substituir carnes vermelhas por peixe durante o período pascal permanece presente em muitas residências. A universitária Gabrielly dos Anjos ilustra essa continuidade ao recordar que, na infância, a família mantinha jejum até o meio-dia e se reunia para um banquete preparado pela avó, com variedades fritas, assadas e a inclusão de bacalhau. Depois do falecimento da matriarca, o encontro se tornou menos frequente, mas segue como lembrança relevante, evidenciando a ligação afetiva associada à data.

No setor comercial, o movimento já se intensificava desde a semana anterior, segundo Cleuber Linares, presidente da Associação de Comerciantes do Mercadão Municipal e proprietário de uma das bancas de pescado. Ele informa que o fluxo atual é semelhante ao de 2023, porém o pico de procura costuma ocorrer na quinta-feira que antecede a Sexta-Feira Santa e no próprio feriado, quando parte dos consumidores deixa a compra para a última hora. A expectativa é de manter o índice de aumento em torno de 150% até o encerramento do período.

Para atender à demanda, os lojistas reforçaram a operação. De acordo com Linares, o planejamento baseou-se em dados de anos anteriores: houve acréscimo aproximado de 20% no volume de mercadorias adquiridas e expansão temporária do quadro de funcionários. Em dias normais, o ponto de venda opera com cerca de oito atendentes; nesta semana, o número chega a 23, estratégia considerada essencial para evitar filas e agilizar o serviço, sobretudo nos horários de maior movimento.

A busca por conveniência orienta a escolha de muitos clientes. Itens já temperados, sem espinhas ou semiprontos figuram entre os mais procurados. Destaque para pacu recheado, filé de tilápia e bolinho de bacalhau, opções que dispensam preparo demorado e se adequam à rotina doméstica. Segundo os comerciantes, a preferência por produtos com valor agregado confirma a tendência de praticidade que vem ganhando espaço no mercado de alimentos.

Relatos de queda de tradição não se confirmam nos caixas das peixarias. Linares observa fidelidade de clientes de diferentes faixas etárias, incluindo jovens adultos. Durante a Quaresma, período que antecede a Semana Santa, o estabelecimento registrou resultado superior ao de 2023, sinalizando que, mesmo diante de mudanças de hábitos alimentares, o pescado mantém relevância no calendário religioso e familiar.

O cenário econômico, porém, gera apreensão. O reajuste dos combustíveis, vinculado à alta internacional do petróleo motivada pelo conflito no Oriente Médio, elevou custos logísticos e de insumos como embalagens. Nas contas do empresário, o valor do transporte já apresenta acréscimo, enquanto o preço de embalagens plásticas subiu até 100%. Apesar disso, não houve repasse expressivo ao consumidor nesta Semana Santa, mas os comerciantes avaliam a possibilidade de reajustes futuros caso as despesas permaneçam em trajetória ascendente.

Do ponto de vista do consumidor, o pescado carrega significados que ultrapassam a alimentação. O professor aposentado Elton Pereira Borges relata que, embora peixe não esteja presente regularmente no cardápio da família, na Semana Santa o consumo é “sagrado”. A reunião ocorre em casa, normalmente com preparo de peixe frito ou moqueca pela esposa, configurando momento de reflexão e convivência familiar alinhado ao simbolismo religioso da data.

A conjugação de fé, tradição gastronômica e impacto econômico torna a Semana Santa um dos intervalos mais relevantes para o comércio de pescado em Mato Grosso do Sul. Mesmo com adaptações na oferta – como a ampliação de produtos práticos – e desafios decorrentes de custos operacionais, a procura consistente demonstra que o hábito permanece vivo, garantindo expressivo retorno financeiro a feirantes e peixarias locais e reforçando o papel do setor na movimentação da economia regional.

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