O empresário Francisco Maturro, ex-secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, defendeu que o próximo ciclo de crescimento do agronegócio brasileiro depende de uma combinação de crédito acessível, melhoria da infraestrutura e avanço tecnológico. A avaliação foi apresentada durante entrevista no estúdio móvel do Grupo RCN, instalado no Parque de Exposições Laucídio Coelho, no contexto do evento RCN Agro 2026.
Segundo ele, a produção agrícola nacional já demonstrou capacidade para atender tanto ao mercado interno quanto ao externo, mas gargalos fora da porteira continuam limitando ganhos de eficiência e competitividade. “Produzir nós já sabemos; o desafio é escoar, armazenar e financiar”, resumiu.
Maturro recordou que a agricultura tropical brasileira se consolidou a partir dos anos 1970, quando pesquisa científica e mecanização permitiram a expansão para o Cerrado. Naquele período, a baixa fertilidade natural dos solos da região exigiu soluções próprias, desenvolvidas por centros de pesquisa como a Embrapa. Essa trajetória, disse ele, prova que o êxito do setor não é resultado apenas de condições climáticas favoráveis, mas sobretudo de investimento em ciência adaptada à realidade local.
Para o dirigente da Rede ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), o sistema integrado representa hoje a terceira grande evolução do agro, sucedendo o plantio direto e a implantação da segunda safra. Ele informou que, nas últimas duas décadas, aproximadamente 20 milhões de hectares de pastagens com algum grau de degradação foram convertidos para modelos integrados – uma média de 1 milhão de hectares por ano. Ainda restariam cerca de 159 milhões de hectares em pastagens que podem ser tecnicamente adequadas para elevação de produtividade e sustentabilidade.
Embora veja espaço para expansão, Maturro considera que o custo do financiamento trava parte dos investimentos necessários. Juros elevados, argumentou, ampliam o risco do produtor, sobretudo em sistemas que exigem aporte expressivo de capital por hectare. Ele defendeu uma política de crédito rural que combine prazos compatíveis com o retorno dos projetos e taxas que reflitam o perfil estratégico da atividade agrícola para a economia nacional.
No plano logístico, o empresário listou carências em ferrovias, rodovias, portos, hidrovias e armazenagem. Um dado citado na entrevista ilustra o tamanho do déficit: cerca de 135 milhões de toneladas de grãos estariam sem estrutura adequada para estocagem no país. O resultado, destacou, é aumento de perdas, elevação de custos com transporte de longa distância e menor competitividade frente a produtores de outras regiões do mundo.
Maturro entende que a solução exige atuação coordenada do Estado e do setor privado. Ao poder público caberia estabelecer marcos regulatórios estáveis, simplificar licenciamentos e garantir segurança jurídica. Já o capital privado, na visão dele, possui capacidade de aportar recursos em escala, desde que encontre previsibilidade para projetos de longa maturação.
Ao abordar sustentabilidade, o ex-secretário reforçou que preservação ambiental, inclusão social e viabilidade econômica devem caminhar juntas. Ele observou que 87% da população brasileira vivem em áreas urbanas e, por isso, grande parte do debate sobre o campo nasce do distanciamento entre quem produz e quem consome. Para reduzir essa lacuna, defendeu comunicação mais direta do agronegócio com a sociedade, mostrando como cadeias produtivas reguladas já incorporam critérios ambientais e sanitários rigorosos.
Na mesma linha, rebateu a ideia de que inovação seja restrita a grandes propriedades. Dados mencionados por ele apontam que 77% dos estabelecimentos rurais do país são classificados como pequenos, percentual que sobe para 87% em São Paulo. Maturro citou exemplos de áreas reduzidas que combinam culturas de rápido, médio e longo prazos – como banana, cacau e seringueira – além de atividades como produção de mel, alcançando rentabilidade elevada por hectare.
Ao final da conversa, o empresário lamentou o que chamou de “captura ideológica” de temas agrícolas em debates eleitorais e redes sociais. Para ele, o país necessita de políticas de Estado que ultrapassem ciclos de governo, especialmente em logística, pesquisa, segurança energética e redução da dependência externa de fertilizantes. “O Brasil já é referência em produção; falta garantir as condições estruturais para sustentar esse protagonismo pelas próximas décadas”, concluiu.








