Raylane Diba Ferrari, médica-veterinária de 29 anos e criadora de conteúdo com mais de meio milhão de seguidores, foi presa na segunda-feira (4) em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, sob suspeita de fabricar e comercializar produtos cosméticos inadequados para consumo humano. De acordo com a Polícia Civil, a profissional utilizava o próprio pet shop, localizado no Bairro Universitário, como laboratório clandestino para manipular os itens divulgados nas redes sociais como um “kit cresce cabelo”.
Durante a ação policial, conduzida em conjunto com o Procon estadual, o Ministério da Agricultura e a Polícia Científica, foram apreendidos mais de 60 frascos já acondicionados e prontos para venda. As embalagens, segundo o inquérito, continham xampus originalmente destinados a cavalos, acrescidos de suplementos e vitaminas de uso veterinário. A mistura alterava a composição do produto e o caracterizava como novo cosmético voltado ao público humano, prática enquadrada como adulteração e desvio de finalidade.
O presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Mato Grosso do Sul (CRMV-MS), Thiago Fraga, informou que o estabelecimento não possuía autorização sanitária nem responsável técnico habilitado para a atividade de manipulação cosmética. Além disso, a investigação apurou que a influenciadora também anunciava pomadas para equinos como analgésicos destinados a pessoas, ampliando o escopo de irregularidades.
Segundo a Polícia Civil, um funcionário foi flagrado participando da produção, mas não houve prisão em flagrante além da proprietária. A corporação sustenta que a ausência de controle de qualidade coloca em risco a saúde de eventuais compradores, embora, até o momento, não existam registros oficiais de consumidores lesados. Todo o material recolhido será submetido a perícia para verificar possíveis contaminações ou concentrações inadequadas de princípios ativos.
O procedimento criminal foi instaurado após denúncia encaminhada por outro conselho profissional, cujo nome não foi divulgado. A notificação levou o CRMV-MS a abrir processo ético-disciplinar contra Ferrari. No âmbito administrativo, as penalidades variam de advertência formal à cassação definitiva do registro profissional, decisão que só será tomada após a conclusão do processo, com garantia de amplo direito de defesa.
As autoridades destacam que a venda de medicamentos e cosméticos requer registro específico na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e cumprimento de normas de boas práticas de fabricação, o que inclui instalações adequadas, equipamentos compatíveis, profissionais qualificados e documentação técnica. Sem essas exigências, produtos manipulados podem apresentar dosagens incorretas, contaminação microbiológica ou reações químicas indesejáveis.
A operação também apontou falhas no armazenamento de insumos veterinários, encontrados em prateleiras expostas a variações de temperatura e umidade. Relatórios preliminares indicam que os rótulos não informavam composição, modo de uso nem advertências obrigatórias, fatores que dificultam rastreamento de eventuais efeitos adversos.
A defesa de Raylane Diba Ferrari não se manifestou até o momento. Caso as irregularidades sejam confirmadas, ela poderá responder criminalmente por crimes contra a saúde pública previstos no Código Penal, cujas penas podem chegar a 15 anos de reclusão em situações que resultem em dano ao consumidor. A esfera cível também não está descartada, uma vez que compradores lesados podem buscar indenizações por eventuais prejuízos dermatológicos ou financeiros.
O delegado responsável pelo caso afirmou que as investigações continuam para apurar o volume de vendas efetuadas, valores arrecadados e eventual participação de outros colaboradores. As autoridades analisam ainda o alcance da divulgação dos produtos, veiculada principalmente por meio de vídeos e postagens promocionais, além de depoimentos de seguidores que teriam adquirido o kit capilar.
A Polícia Civil orienta consumidores que tenham adquirido qualquer item associado à influenciadora a interromper o uso imediatamente e procurar assistência médica caso apresentem irritações, alergias ou outros sintomas. Esses compradores também são incentivados a registrar ocorrência para auxiliar no levantamento de provas sobre possíveis danos à saúde.
Enquanto prosseguem as apurações, os frascos apreendidos permanecem sob guarda da perícia oficial. O CRMV-MS reforça que a manipulação de insumos veterinários para fins humanos fere normas sanitárias e pode comprometer a eficácia dos produtos, além de representar risco direto à integridade física dos usuários.








