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Fiems calcula impacto de R$ 130 bilhões anuais com proposta que extingue escala 6×1 e alerta para alta de preços

A possível alteração constitucional que determina o fim da jornada de trabalho na escala 6×1 — seis dias de trabalho para um de descanso — dominou o debate entre empresários de Mato Grosso do Sul na noite de 15 de março, em Campo Grande. Durante o fórum “Diálogo sobre o Desenvolvimento do Brasil”, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (Fiems), Sérgio Longen, apresentou projeções financeiras que colocam em xeque a viabilidade da proposta em nível nacional.

Segundo o dirigente, a mudança acrescentaria aproximadamente R$ 130 bilhões por ano aos custos das empresas privadas, valor que, na avaliação dele, não poderá ser absorvido pelo setor produtivo e será repassado ao consumidor final. Longen advertiu que a transferência dessa despesa deve pressionar os preços de bens e serviços, alimentando a inflação e reduzindo o poder de compra da população.

O tema ganhou urgência depois que a Câmara dos Deputados acelerou a tramitação da proposta de emenda à Constituição (PEC). Para o presidente da Fiems, a celeridade se deve ao calendário eleitoral de 2026, transformando a pauta em “vantagem política” para parlamentares que buscam a reeleição. Ele sustenta que a expectativa é de aprovação na Câmara, cenário que obriga o setor empresarial a concentrar esforços no Senado Federal para tentar alterar o texto.

Longen argumentou que a extinção da escala 6×1, sem redução salarial, cria um ambiente de perda de competitividade na comparação com economias que são referência para a indústria brasileira. Entre os exemplos citados estão Estados Unidos, China e União Europeia, onde custos trabalhistas são considerados menos onerosos em várias cadeias produtivas. Para ele, ampliar o gasto fixo das companhias brasileiras em um momento de taxas básicas de juros (Selic) elevadas compromete a capacidade de investimento e a geração de empregos.

Na análise apresentada ao público, o dirigente lembrou que empresas de todos os portes lidam atualmente com limitações de crédito, consequência direta da política monetária restritiva. A adoção de uma jornada menor, sem redução proporcional da remuneração, exigiria contratações adicionais ou pagamento de horas extras, ambos refletindo em aumento imediato da folha e em elevação de custos indiretos, como encargos previdenciários e tributários.

Para além dos impactos internos, Longen avaliou que a medida pode reduzir a atratividade do país para novos investimentos externos. Ele explicou que multinacionais consideram a estrutura de custos trabalhistas ao definir o destino de capital produtivo. Se o Brasil acrescentar mais um fator de encarecimento, advertiu, parte dos projetos poderá migrar para mercados onde o custo relativo permaneça mais baixo.

Apesar das críticas, o presidente da Fiems reconheceu que a discussão sobre jornadas mais curtas atende a demandas sociais, mas enfatizou a necessidade de compatibilizar direitos dos trabalhadores com a sustentabilidade financeira das empresas. De acordo com ele, o debate deveria ocorrer de forma mais ampla, envolvendo sindicatos, confederações patronais e órgãos governamentais, antes de qualquer deliberação conclusiva no Congresso Nacional.

Diante da probabilidade de aprovação na Câmara, federações e confederações da indústria estudam estratégias para atuação conjunta no Senado. A intenção é promover audiências, apresentar estudos de impacto e buscar apoio de parlamentares alinhados à defesa da competitividade. Segundo Longen, há confiança de que a Casa revisora fornecerá um “ambiente diferente”, propício a ajustes que mitiguem os efeitos econômicos previstos.

Entre os pontos que poderão ser alvo de negociação estão a possibilidade de flexibilizar a regra em setores que operam em regime de turnos contínuos, a criação de períodos de transição para adaptação empresarial e a avaliação de mecanismos de compensação fiscal que atenuem a expansão dos custos sobre a cadeia produtiva.

Enquanto a articulação avança, empresários demonstram preocupação com o potencial reflexo sobre índices inflacionários. A interpretação corrente no setor é que, ao elevar a despesa das companhias, a norma pressionará preços em segmentos sensíveis do consumo, como alimentos industrializados, vestuário e bens de duráveis, comprometendo a meta de inflação perseguida pelo Banco Central e exigindo ajustes adicionais na política monetária.

Longen ressaltou ainda que o aumento de preços atingiria diretamente trabalhadores, o mesmo público que, em tese, seria beneficiado pela redução da jornada. “O consumidor termina pagando a conta”, afirmou, ao reforçar a convicção de que a proposta, se aprovada nos moldes atuais, produzirá efeito contrário ao objetivo de melhora na qualidade de vida da população.

Embora o debate continue em curso, o presidente da Fiems indicou que as entidades empresariais não se opõem a avanços na legislação trabalhista, desde que os custos e benefícios sejam equacionados. O foco, segundo ele, permanece na busca por um entendimento que concilie produtividade, competitividade internacional e remuneração adequada dos empregados, evitando a transferência integral de encargos para a sociedade.

Com a tramitação acelerada na Câmara e a mobilização do setor privado para interferir no Senado, o desenrolar da PEC que extingue a escala 6×1 tende a se consolidar como um dos principais embates legislativos do ano entre governo, parlamento, trabalhadores e indústria.