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Deputado Dagoberto Nogueira nega ligação com esquema de venda de livros investigado pelo Gaeco

Campo Grande (MS) – O deputado federal Dagoberto Nogueira declarou não ter qualquer participação no esquema alvo da Operação Gutenberg, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul. O parlamentar reagiu às referências ao seu nome nos relatórios produzidos pelos investigadores e afirmou que as menções são indevidas.

De acordo com o Gaeco, a organização criminosa sob apuração usava a venda de livros didáticos da Editora Avante a prefeituras como fachada para desvio de recursos públicos. Em troca da aquisição das obras, o grupo prometia facilitar o acesso dos municípios à central de regulação de exames do Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado. As suspeitas apontam que a fraude movimentou cerca de R$ 27 milhões.

Relatórios anexados ao inquérito indicam que os golpistas planejavam citar nomes de agentes políticos, entre eles Dagoberto, para conferir legitimidade às abordagens feitas a prefeitos. Segundo os documentos, a estratégia teria como objetivo convencer gestores municipais a aderir ao contrato de fornecimento dos livros e, assim, liberar verbas destinadas à educação.

O parlamentar contestou a utilização de seu nome e disse não conhecer os suspeitos detidos. Ele classificou as citações como indevidas, reforçando que não manteve qualquer comunicação com integrantes do esquema. “Exijo que a verdade seja restabelecida”, afirmou, sem acrescentar comentários sobre eventuais medidas judiciais.

Fachada educacional e interferência na saúde

Investigações preliminares revelam que a venda dos materiais didáticos servia como artifício para justificar a entrada de dinheiro público nas contas da quadrilha. Uma vez assinado o contrato, os valores pagos pelas prefeituras eram desviados para empresas e pessoas ligadas ao grupo. A promessa de ajuda para “furar” a fila do SUS funcionava como moeda de troca para acelerar o fechamento dos negócios.

O Gaeco aponta que, por meio da central de regulação, os investigados conseguiam alterar prioridades e liberar procedimentos médicos para pacientes indicados pelas administrações municipais que aceitavam as condições. Essa prática teria provocado o furo na fila de aproximadamente 25 mil pessoas que aguardavam atendimento regular.

Contato com prefeitura de Paranaíba

Em pronunciamento à imprensa, Dagoberto relatou ter conversado com o prefeito de Paranaíba, município citado como alvo do grupo. Segundo o deputado, o chefe do Executivo local confirmou não ter adquirido livros da Editora Avante. O diálogo, de acordo com o parlamentar, teve o objetivo de esclarecer dúvidas e afastar qualquer suspeita de interferência.

Além de Paranaíba, a força-tarefa apura possíveis avanços do esquema em Aparecida do Taboado, Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e outras cidades sul-mato-grossenses. Até o momento, não há confirmação de que contratos tenham sido firmados nesses locais, mas a documentação apreendida sugere tentativas recorrentes de aproximação com diferentes prefeituras.

Ausência de recomendações a prefeitos

Dagoberto reiterou não ter feito telefonemas, enviado mensagens ou se reunido com prefeitos para recomendar a compra dos livros ou qualquer serviço ligado ao grupo investigado. O deputado disse estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e forneceu procuradores para acompanhar o caso. “Nunca autorizei ninguém a usar meu nome”, declarou.

As buscas, ordens de prisão e apreensão de documentos foram cumpridas na última semana em endereços residenciais e comerciais. Entre os detidos estão supostos articuladores responsáveis por negociar diretamente com servidores municipais. O Gaeco trabalha agora na análise de planilhas, contratos e registros telefônicos para identificar todos os envolvidos, inclusive eventuais servidores públicos que tenham colaborado com a fraude.

Mesmo sem acusações formais contra políticos, a investigação mantém o foco em verificar se servidores de órgãos estaduais ou municipais facilitaram o acesso indevido à central de regulação do SUS. A suspeita é que a liberação de exames fora da ordem regular tenha beneficiado pacientes específicos mediante contrapartidas financeiras ou políticas.

O Ministério Público ressaltou que a Operação Gutenberg permanece em curso e que novas fases podem ocorrer conforme avançam as perícias em materiais eletrônicos apreendidos. Os promotores não divulgaram prazos para a conclusão do inquérito, mas confirmaram que diligências devem continuar nos próximos meses.

Enquanto isso, Dagoberto Nogueira segue exercendo suas atividades na Câmara dos Deputados. O parlamentar afirma que acompanham o processo seus advogados e que qualquer menção indevida será contestada nos autos. Até o momento, não foi formalizada denúncia contra o deputado, e ele não figura entre os investigados que tiveram prisão pedida ou preventiva decretada.

O Gaeco, por sua vez, reafirma que o principal objetivo é recuperar recursos desviados, responsabilizar os integrantes da organização e impedir novas lesões ao erário. As autoridades mantêm sigilo sobre parte dos dados para não comprometer a coleta de provas. Novas informações deverão ser divulgadas apenas após a conclusão das próximas etapas da operação.