O Brasil enfrenta um indicador preocupante no manejo do diabetes: ocorre, em média, uma amputação por hora em decorrência de complicações do chamado pé diabético. De acordo com dados do Ministério da Saúde, 2022 encerrou com aproximadamente 10 mil intervenções cirúrgicas desse tipo, o que representa 28 procedimentos por dia em todo o país. Com o objetivo de mudar esse cenário em Mato Grosso do Sul, a Caixa de Assistência dos Servidores do Estado (Cassems) implantou, em 2024, a Rede Cuidar, um programa focado na prevenção e no tratamento de feridas complexas.
Desde o início das atividades, a iniciativa acolheu 4.388 pacientes. Apenas nos primeiros seis meses de 2026, foram registrados 588 atendimentos e 11.750 procedimentos, reunindo consultas, curativos especiais e acompanhamentos periódicos. O foco do serviço é detectar lesões em fase inicial, conter infecções graves e evitar a perda de membros, meta que tem impacto direto na qualidade de vida dos beneficiários e na redução de custos hospitalares com internações prolongadas.
A literatura médica indica que pacientes submetidos a amputações de grande porte por complicações do diabetes apresentam taxa de mortalidade de 70% em até cinco anos após a cirurgia. Diante desse dado, o modelo assistencial da Rede Cuidar foi desenhado para intervir antes que o quadro evolua para procedimentos extremos. Entre as frentes de atuação estão o monitoramento diário de lesões por pressão em pacientes internados, a avaliação vascular precoce e o controle rigoroso de processos infecciosos.
O atendimento é realizado por equipes multidisciplinares que reúnem cirurgiões vasculares, infectologistas, enfermeiros estomaterapeutas, fisioterapeutas e nutricionistas. Esse conjunto de profissionais aplica tecnologias de cicatrização avançada, como curativos especiais de alta absorção, terapia por pressão negativa e agentes tópicos antimicrobianos. A associação entre recursos modernos e avaliação clínica constante tem acelerado a recomposição dos tecidos, encurtado o tempo de internação e diminuído a necessidade de reinternações.
Outro diferencial do projeto é a integração entre três níveis de cuidado. No ambiente hospitalar, a equipe atua para estabilizar o quadro e iniciar o tratamento de feridas. Após a alta, o paciente é encaminhado a um ambulatório especializado, onde mantém consultas regulares para troca de curativos e reavaliações. Quando necessário, o acompanhamento chega à residência por meio da assistência domiciliar, garantindo continuidade terapêutica e redução do risco de novas complicações.
A gravidade do pé diabético é evidenciada por relatos de usuários do sistema. Um motorista de 58 anos, morador de Dourados, permaneceu 32 dias internado em estado crítico por causa de uma infecção severa no membro inferior. Inicialmente, havia indicação de amputação; contudo, a intervenção precoce dos profissionais permitiu controlar o foco infeccioso e preservar o pé. No mesmo município, um aposentado de 68 anos precisou remover o dedo maior do pé para conter a progressão de uma infecção associada ao mau controle glicêmico. Ele agora cumpre acompanhamento rigoroso para evitar novas perdas.

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Os resultados assistenciais alcançados pela Rede Cuidar caminham em consonância com estratégias internacionais de manejo do pé diabético, que recomendam abordagem multiprofissional, educação contínua e vigilância periódica das extremidades. Conforme o núcleo gestor do projeto, quanto mais cedo são identificados sinais de isquemia ou infecção, maior é a chance de preservar membros e reduzir custos decorrentes de intervenções complexas.
Além dos benefícios clínicos, o programa contribui para desafogar leitos hospitalares. Ao integrar hospital, ambulatório e atendimento em casa, a iniciativa encurta permanências, libera vagas para casos agudos e diminui gastos com material e medicação. Esse resultado é potencializado pelo acompanhamento domiciliar, que orienta familiares, garante troca correta de curativos e monitoriza o controle glicêmico, fatores decisivos para evitar recidivas.
A coordenação da Cassems reforça que o controle efetivo do diabetes depende de mudanças de hábitos, adesão medicamentosa e vigilância constante de pequenas lesões. Pacientes e familiares são incentivados a realizar inspeções diárias nos pés, manter a pele hidratada, utilizar calçados adequados e procurar atendimento logo aos primeiros sinais de vermelhidão, dor ou formação de bolhas. A detecção precoce é considerada a principal barreira contra o avanço de úlceras e infecções.
Com mais de 4,3 mil pessoas já assistidas, a Rede Cuidar se tornou referência estadual na prevenção de amputações relacionadas ao diabetes. A expectativa é ampliar o volume de atendimentos nos próximos anos e compartilhar o protocolo de cuidados com outras instituições de saúde. Segundo o corpo clínico, disseminar práticas que combinem tecnologia, equipe multiprofissional e acompanhamento contínuo pode contribuir para reduzir o índice nacional de amputações, hoje estimado em uma por hora.







