Campo Grande registrou 1.476 pessoas em situação de rua, de acordo com levantamento concluído pelo Grupo de Trabalho Intersetorial da População em Situação de Rua (GT‑PSR). A contagem, realizada em 30 de setembro de 2025, identificou 842 indivíduos em vias públicas e 634 em pontos de atendimento da assistência social.
Dos 1.476 contados, 1.190 são homens, 234 mulheres e 52 crianças. A região urbana do Centro concentrou 566 pessoas, seguida pelo Anhanduizinho com 363. Também foram registradas 60 pessoas em uma comunidade terapêutica rural, além de ocorrências nas regiões Prosa, Lagoa, Segredo, Bandeira e Imbirussu.
O método utilizado foi a contagem Point‑in‑Time (PIT), que combina observação direta em espaços públicos com registros administrativos da rede de atendimento. O GT‑PSR reúne membros da Defensoria Pública, Secretaria de Assistência Social (SAS) e outras entidades. Segundo Leandro Sauer, superintendente de Inteligência de Dados da Segov, a escolha dos profissionais responsáveis pelas coletas foi fundamental: “Nós escolhemos pessoas que já estavam inseridas nos locais onde estavam fazendo a contagem e traçando o perfil. Ou seja, são pessoas que trabalham com isso há tanto tempo que, quando chegam ao local conseguem reconhecer quem são as pessoas daquele entorno e quem não é. Então, por isso que eu tenho confiança tanto no número que foi apresentado como nas características.”
Na segunda etapa, o GT‑PSR aplicou questionários e reuniu 257 entrevistas, sendo 193 com pessoas em situação de rua e 64 com pessoas acolhidas. A maioria dos entrevistados é masculina e parda, com idade média de 39,6 anos. Pessoas pardas representam 60,3% da base e pessoas pretas 17,1%. A falta de documentação aparece entre os principais obstáculos: em 120 entrevistas, 46,7% da base, foi registrada a opção de nenhum documento em posse; entre as pessoas do grupo em rua, o percentual chega a 57,5%. O levantamento também registrou 135 pessoas inscritas no Cadastro Único e 101 que recebem benefício social. A situação de rua se mostrou recorrente, com 166 casos (64,6%) de pessoas que já haviam passado anteriormente por essa condição; 190 entrevistados (73,9%) informaram permanecer sozinhos.
Entre as necessidades citadas, destacam-se trabalho e renda (110 registros), moradia (108), alimentação (107), saúde (100), documentação (91) e tratamento para uso de substâncias (77). Sete entrevistados informaram ter trabalho formal e 94 declararam trabalho informal; 88 (45,6%) das pessoas em rua relataram trabalho informal. A catação e a reciclagem aparecem em 72 dos 193 registros desse grupo.
A violência física foi registrada em 127 entrevistas (49,4% da base). Também houve 121 relatos de violência psicológica ou emocional, 56 de violência institucional e 24 de violência sexual.
Os dados apontam para a necessidade de ações articuladas nas áreas de documentação, trabalho, renda, moradia, saúde, acolhimento e reconstrução de vínculos, além de medidas específicas para mulheres, pessoas trans, famílias, casais, pessoas com deficiência, migrantes e idosos.
Camilla Nascimento, vice‑prefeita de Campo Grande e secretária de Assistência Social, ressaltou que os números representam histórias individuais: “Atrás de cada número que vai ser apresentado, existe uma pessoa, existe um nome, existe uma história, existe uma família, existe um motivo que levou essa pessoa a participar dessa contagem.” Paula da Silva Volpe, promotora de Justiça, destacou a importância dos dados para dimensionar a realidade e definir as ações: “Só que não se faz política pública sem dados, todos nós sabemos. Não tem como a gente trabalhar em cima de uma situação que não é conhecida.” O defensor público Gustavo Henrique Pinheiro Silva afirmou que o levantamento amplia a responsabilidade do Poder Público diante dos dados consolidados: “A partir desses dados aí nasce a responsabilidade maior ainda porque aí temos dados concretos a partir dos quais os poderes públicos serão ainda mais cobrados para fazer que essa realidade seja alterada.”
O GT‑PSR é composto pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, SEAD, SEGEM, Planurb, SAS, SESAU, Ministério Público de Mato Grosso do Sul, IBGE e Associação Águia Morena de Redução de Danos.








