A Polícia Federal não encontrou no telefone de Daniel Vorcaro um contato salvo como “Paulo Gonet” ou “Gonet”, mas identificou uma sequência de referências a ele em conversas com Ciro Soares, que, segundo os investigadores, podem se referir ao procurador-geral da República.
Em abril de 2024, Ciro Soares enviou a Vorcaro a mensagem “Amizade é tudo viu irmão” e, em seguida, “Gonet é firme”. Ele pediu que Vorcaro mantivesse a mensagem “Fique só com vc”, que continha referência a uma pessoa identificada como Jarbas. Posteriormente, Ciro enviou um áudio alegando ter pedido a “Gonet” uma intervenção relacionada à desistência de uma candidatura. O áudio registra a versão de Ciro e não comprova que o procurador-geral tenha feito o que foi alegado.
Em 15 de março de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia em que aparecia acompanhado de Paulo Gonet, seguido das mensagens “Liga aqui” e “Ele quer falar com você”. A partir daí, foram registradas quatro chamadas de voz entre os telefones de Vorcaro e Ciro. As ligações identificadas pela PF foram entre Vorcaro e Ciro, não diretamente para um número atribuído a Gonet, o que impede afirmar que Vorcaro tenha falado com o procurador-geral.
Em março, Ciro encaminhou a Vorcaro mensagens que atribuíram a “Gonet” que ele “estava na torcida” e que “Gonet iria para Londres com o grupo”. No dia seguinte, escreveu que “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”, ao que Vorcaro respondeu afirmativamente. Dias depois, uma funcionária perguntou a Vorcaro quais nomes estavam autorizados a viajar para Londres “com despesas pagas por nós”. Vorcaro não aprovou toda a relação, mas fez a ressalva “Pedro e Ciro ok”, referência a Pedro Gonet e Ciro Soares. O relatório indica que a referência era a Pedro Gonet e Ciro Soares, mas não comprova que Pedro tenha efetivamente viajado, que as despesas tenham sido pagas ou que Paulo Gonet tenha solicitado ou aceitado qualquer vantagem.
Em junho de 2025, Ciro voltou ao tema, dizendo a Vorcaro que “PG confirmou a ida pra Londres” e perguntando se “Pedrinho filho do PG” poderia acompanhá-los. Vorcaro respondeu positivamente. O conjunto ganha peso por ser recorrente e surgir em diferentes momentos, mas a PF deixa claro que não há contato salvo como Paulo Gonet no aparelho e trabalha com associações contextuais.
O relatório não acusa o procurador-geral de receber vantagem ou de atuar a favor de Vorcaro, nem demonstra que o PGR tenha interferido em investigações sobre o Banco Master. Entretanto, as conversas apresentam uma rede de intermediação que merece esclarecimento, incluindo referências a amizade, mensagens supostamente repassadas por Gonet, fotografia, tentativa de contato por intermédio de Ciro e discussões sobre viagem internacional. Para a autoridade que chefia o Ministério Público Federal, a transparência sobre esse tipo de relação é especialmente relevante. É necessário saber quais encontros ocorreram, quem custeou despesas, quais viagens efetivamente aconteceram e se houve qualquer relação entre essas interações e assuntos ligados aos interesses empresariais de Vorcaro. Até que essas perguntas sejam respondidas, o relatório documenta referências e tratativas, não uma contrapartida ilícita.







