O enfrentamento contemporâneo ao crime organizado exige que o Estado deixe de atuar apenas sobre a manifestação violenta do crime por meio, tão somente, do cerceamento de liberdade, e passe a atingir aquilo que sustenta sua continuidade: o uso do dinheiro ilicitamente auferido e o proveito da criminalidade geral.
Para isso, a integração entre a Polícia Civil e o Fisco estadual se tornou instrumento estratégico de inteligência, investigação, asfixia financeira e recuperação de ativos. Em São Paulo, essa integração já produz resultados concretos, reunindo diversos atores em ações integradas destinadas a identificar e apurar crimes de sonegação e ilícitos correlatos, inclusive lavagem de dinheiro, bem como mecanismos de blindagem e ocultação patrimonial e medidas voltadas à recuperação de bens e direitos obtidos ilegalmente.
Em 2026, a força‑tarefa da Polícia Civil mobilizou 100 policiais, 20 auditores fiscais da Sefaz‑SP, investigando lavagem de capitais e ocultação de bens que movimentou ao menos R$ 1,1 bilhão e resultou em bloqueio superior a R$ 1 bilhão. Esses resultados demonstram que a inteligência policial e fiscal, quando integradas, permitem compreender a engenharia econômica da organização criminosa e agir simultaneamente sobre pessoas, empresas, fluxos financeiros e patrimônio.
Essa agenda de integração está diretamente alinhada aos padrões e tratados internacionais assumidos pelo Brasil, nomeadamente a criminalização da lavagem de dinheiro abrangendo todas as infrações penais possíveis, incluindo crimes graves. A recuperação de ativos se torna prioridade, com mecanismos para identificar, rastrear e avaliar bens criminosos, congelar e apreender rapidamente, confiscar por meio da condenação penal e, concomitantemente ou alternativamente, por meio da tributação, além da possibilidade de se proceder por meios de confisco não baseados em condenação, assegurando a gestão efetiva dos bens.
Integração em ação
Como pauta de continuidade, o compromisso firmado até o presente abre espaço para aprofundar a integração Polícia Civil–Fisco, fortalecer canais seguros de inteligência e intercâmbio de dados, desenvolver atividades de inteligência financeira desde o início do conhecimento dos fatos criminosos ou da ciência da evolução patrimonial incompatível com a renda declarada, ampliar a identificação de beneficiários finais e estruturas empresariais utilizadas para ocultação patrimonial, aperfeiçoar a localização, apreensão, administração e destinação de ativos e qualificar continuamente os agentes públicos.
Não se trata apenas de combater a lavagem como crime autônomo em reforço ao enfrentamento da criminalidade em geral: trata‑se de retirar das organizações criminosas a capacidade econômica de financiar novas atividades, corromper agentes, adquirir patrimônio e ampliar seu território de atuação, desestimulando‑os na continuidade delitiva, demonstrando que o crime efetivamente não compensa. Em última análise, asfixiar financeiramente o crime organizado é proteger o cidadão, reduzir sua capacidade de produzir violência e fazer com que o crime deixe de ser economicamente vantajoso.







