Em Três Lagoas, o que começou como um treino entre amigos para uma peregrinação transformou-se em uma rede de atividade física, convivência e solidariedade. Em cerca de dois anos e meio, o grupo Quatis saiu de cinco participantes para 170 integrantes. A iniciativa manteve a proposta de caminhar e correr junto, mas passou a organizar doações mensais para instituições sociais da cidade.
A iniciativa surgiu de forma simples, quando um pequeno grupo começou a se reunir para caminhar e se preparar para o Caminho da Fé, uma das maiores rotas de peregrinação do Brasil. Os treinos chamaram a atenção de amigos, novos participantes foram chegando e o encontro passou a ter rotina, planilha de treinamento e acompanhamento gratuito.
Origem e rotina de treinos
A orientação é feita pela profissional de educação física e idealizadora do grupo, Katiucia Cunha. Segundo ela, o nome Quatis veio de um grupo de pedal que já existia entre conhecidos do marido, formado por homens que andavam juntos pela cidade e acabaram recebendo o apelido.
“Quando eles chegaram aqui na cidade, eles andavam juntos, era um bando de homem andando junto, e a turma gritava: os quatis”, contou Katiucia. “A gente achou interessante colocar no grupo da corrida porque significa união, estar sempre andando junto.”
As caminhadas acontecem três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras. Em alguns dias, o treino também inclui exercícios funcionais, enquanto os participantes seguem uma planilha de preparação para provas realizadas em Três Lagoas e em outras cidades da região.
O grupo reúne perfis diferentes. Há quem participe apenas para se movimentar e cuidar da saúde, e há integrantes que treinam com foco em competição e pódio. Para Katiucia, no entanto, o resultado mais forte aparece nas histórias compartilhadas ao longo do caminho.
“A história é contada no final, na chegada de uma corrida. Tem gente que corre para ganhar pódio, a gente também treina para isso, só que é muito mais gostoso estar ali ouvindo as histórias, a superação é muito legal”, afirmou.
Voluntariado e impacto social
Além dos treinos semanais, o Quatis mantém uma frente de voluntariado. As contribuições são espontâneas e podem incluir dinheiro, fraldas, cestas básicas e outros produtos, sempre de acordo com o que cada entidade informa como necessidade.
Katiucia explicou que o grupo conversa com a coordenação das instituições antes de organizar cada arrecadação. Em setembro, por exemplo, os integrantes se mobilizavam para ajudar a Apae, com itens solicitados pela própria entidade.
“Todo mês a gente destina as doações do grupo para alguma instituição. A gente costuma conversar com a coordenação da instituição e perguntar o que eles estão precisando”, relatou.
“Não é em dinheiro muitas vezes. A galera vai ajudar contribuindo com o que elas pediram, compra, entrega para mim, e eu vou lá e faço a doação em nome do grupo”.
A idealizadora afirma que a escolha por doações, em vez de cobrança obrigatória, nasceu de forma natural e tem relação com a experiência no Caminho da Fé, onde, segundo ela, a ideia de ajudar o outro é muito presente.
“Lá a gente aprende muito sobre isso, um ajudar o outro, um dar a mão para o outro. Eu trouxe isso do Caminho da Fé para a vida, para o nosso grupo dos Quatis: união, família, respeito, resiliência”, resumiu.
O grupo não exclui quem não consegue contribuir em determinado mês. De acordo com Katiucia, o objetivo principal é acolher, reunir pessoas, promover saúde, criar vínculos e transformar esse movimento coletivo em solidariedade.
Ao longo da trajetória, os Quatis também passaram a reunir relatos de superação. Entre eles estão histórias de pessoas que chegaram enfrentando momentos difíceis, inclusive depressão, e encontraram na atividade física e na convivência com o grupo uma forma de recomeçar.
“Tem muita história de depressão e da necessidade de estar dentro de uma sociedade, de um grupo. Isso faz a gente querer continuar com o nosso trabalho, saber que está no caminho certo”, disse Katiucia.
“Eu ajudo as pessoas a saírem de uma depressão, e elas ajudam outras pessoas também que precisam, dando doação. A gente faz essa ponte, essa corrente do bem.”
A união também aparece quando os integrantes participam de corridas em outras cidades. Nessas ocasiões, o grupo divide transporte para ampliar a participação e levar mais pessoas às provas.
Com o crescimento, a estrutura também aumentou. Hoje, os Quatis contam com tenda, equipamentos e uma Kombi comprada pelo marido de Katiucia para facilitar caronas e transportar cadeiras, materiais e a estrutura usada em corridas e treinos mais distantes.
De cinco para 170 integrantes, o grupo cresceu sem abandonar a essência que deu origem à iniciativa: caminhar e correr junto. Entre treinos, amizades, doações e histórias de superação, os participantes resumem a experiência em palavras como determinação, família, união, relacionamento e superação.







