Mato Grosso do Sul transformou uma parcela crescente do milho em combustível, renda e oportunidades. Em pouco mais de quatro safras, o estado saiu de nenhuma usina de etanol de milho em funcionamento para ocupar a segunda posição entre os maiores produtores do país, segundo estudo da Aprosoja/MS. Na safra 2024/2025 foram colhidas 13,9 milhões de toneladas em mais de 2 milhões de hectares. Cerca de 2 milhões de toneladas foram exportadas, enquanto outra parcela foi absorvida pelas indústrias instaladas no próprio estado.
Atualmente, três usinas produzem etanol de milho em Mato Grosso do Sul, localizadas em Dourados, Sidrolândia e Maracaju. Uma quarta unidade está em implantação em Nova Alvorada do Sul e terá capacidade para processar 642 mil toneladas do grão por ano. A planta deverá produzir 273 milhões de litros de etanol, 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo de milho anualmente.
Crescimento da produção
A expansão industrial acrescenta um comprador de grande porte à cadeia produtiva. Antes direcionado principalmente à exportação e às fábricas de ração, o milho agora também pode ser comercializado diretamente com as usinas. “A instalação das usinas acrescenta um novo comprador de grande porte dentro do próprio Estado, criando uma terceira alternativa de comercialização para o grão”, explica Linneu Borges Filho, analista de Economia da Aprosoja/MS. O crescimento da demanda tende a aumentar a concorrência pelo cereal e pode contribuir para a valorização do produto em determinadas regiões. Ao mesmo tempo, exige planejamento para garantir oferta suficiente às indústrias de etanol, fábricas de ração e exportadores.
O processamento do milho não resulta apenas em etanol. As unidades também produzem DDG ou DDGS, coprodutos ricos em proteína utilizados na alimentação animal, além de óleo de milho e gás carbônico para uso industrial. Em 2025, Mato Grosso do Sul produziu 1,4 milhão de toneladas de DDG, das quais 1,15 milhão foram exportadas. O avanço abre espaço para uma cadeia industrial ligada à pecuária, à produção de alimentos, ao biodiesel e ao setor de bebidas.
O milho também aumentou sua participação na economia estadual. Conforme o estudo da Aprosoja/MS, o VBP (Valor Bruto da Produção) do cereal cresceu 88,1% em 2025 e passou a representar 16,8% do VBP agropecuário de Mato Grosso do Sul.
Em Nova Alvorada do Sul, o investimento previsto supera R$ 1 bilhão. Aproximadamente 2 mil trabalhadores devem participar da fase de construção e, depois do início das operações, pelo menos 100 profissionais serão contratados para atuar na linha de produção.
Impacto na cadeia
O setor bioenergético sul‑mato‑grossense já havia alcançado a produção recorde de 4,2 bilhões de litros de etanol na safra 2024/2025, com o milho respondendo por 37% do volume. Dados mais recentes da Biosul indicam que a produção total chegou a 5 bilhões de litros no ciclo seguinte, com participação de 44% do etanol de milho.
O avanço das usinas cria oportunidades, mas também amplia os desafios. Com mais compradores disputando o milho, o Estado precisará elevar a produtividade, ampliar a capacidade de armazenagem e melhorar as condições de transporte. A Rota Bioceânica surge como alternativa estratégica para o escoamento de produtos industrializados, especialmente o DDG, em direção aos mercados internacionais. A ligação com os portos do Pacífico pode reduzir distâncias e abrir novas possibilidades comerciais para a cadeia agroindustrial.
O novo desenho do setor mostra que Mato Grosso do Sul está deixando de vender apenas o grão e passando a agregar valor à produção. Para os produtores, significa mais uma opção de comercialização. Para os municípios, representa empregos e atividade econômica. Para o Estado, consolida uma cadeia mais diversificada, industrializada e preparada para uma nova fase de crescimento.








