Uma pesquisa realizada em Campo Grande revela que o uso de medicamentos injetáveis para emagrecimento alterou o comportamento dos consumidores nos restaurantes, mas não reduziu a frequência de visitas. O levantamento, apresentado nesta quinta-feira (24.09) no Senac Hub Academy, indica que a principal mudança está no tamanho das porções e na composição dos pedidos.
O estudo foi conduzido pelo Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Fecomércio-MS (IPF-MS) para o Senac MS. A equipe ouviu presencialmente 1.087 consumidores nas sete regiões urbanas da capital entre 24 de agosto e 2 de setembro. Do total de entrevistados, 14,1% relataram usar ou já ter usado esses medicamentos para controle de peso.
Os dados mostram uma diferença significativa nas preferências. Entre os usuários, 87,7% preferem porções menores do que costumavam consumir. Esse índice é quase o dobro do registrado entre os não usuários, que é de 43,9%. A diferença de 43,8 pontos percentuais é a maior identificada em todo o levantamento.
Mudança na mesa
Nilde Brun, diretora do IPF-MS, destaca que o impacto não aparece na frequência com que o consumidor sai para comer, mas sim no que chega à mesa. Para ela, a redução das porções abre espaço para que os estabelecimentos repensem a quantidade servida, o valor agregado e a comunicação com esse público.
Brun sugere que os empresários considerem a precificação premium para porções reduzidas. A recomendação inclui ensinar a transição de pratos volumosos para opções com alta densidade em proteínas. Essa estratégia busca atender à demanda por alimentos mais nutritivos e em menor volume.
Os números sustentam essa análise. Dentre os usuários, 41,2% afirmam continuar comendo fora com a mesma frequência após o início do uso. Outros 21,6% passaram a sair mais. Além disso, 91,5% relataram redução do apetite. A mudança é mais visível na composição do pedido, com menor volume de comida, mais proteínas, vegetais e saladas, além de menos doces e sobremesas.
Perfil do consumidor
O perfil dos usuários também apresentou características específicas no levantamento. Entre as mulheres entrevistadas, 19,2% usam ou já usaram os medicamentos. Esse índice é mais que o dobro do registrado entre os homens, que é de 9,1%.
A pesquisa também aponta um crescimento no uso conforme a renda domiciliar. Entre pessoas com renda de até três salários mínimos, o índice é de 11,1%. Já entre aquelas com renda superior a dez salários mínimos, o percentual sobe para 22%.
Os critérios para escolher o que comer também mudaram. O equilíbrio entre prazer e saúde foi citado por 47,7% dos usuários, contra 31,6% dos não usuários. O preço tem peso menor nesse grupo: apareceu para apenas 1,3% de quem utiliza ou já utilizou os medicamentos, diante de 11,1% entre os demais consumidores.
Jordana Duenha, diretora regional do Senac MS, afirma que a pesquisa oferece uma base concreta para adaptar produtos e serviços. Ela ressalta que não se trata de um consumidor que deixou de frequentar restaurantes, mas de alguém que faz novas escolhas. O objetivo é transformar dados em soluções para cardápios, precificação e atendimento.
Juliano Wertheimer, presidente do Sistema Comércio MS, destaca que os dados mostram uma transformação que ultrapassa a alimentação. Ele reforça a necessidade de acompanhar o consumidor para orientar decisões empresariais. O Senac MS oferece capacitações e consultorias para apoiar empresários diante das novas demandas do mercado.
Entre as 69 pessoas que já pararam de usar os medicamentos, 27,5% disseram ter mantido praticamente todas as mudanças de hábito. Outros 36,2% preservaram parte delas. Isso indica que o impacto no mercado pode ir além do período de uso das canetas, especialmente se os estabelecimentos adaptarem seus produtos às novas preferências.
Considerando todos os entrevistados, 85,6% consideram que a preocupação com alimentação saudável fora de casa representa uma mudança permanente de comportamento. Apenas 6,3% classificam essa preocupação como tendência passageira.
Leonardo Leão, consultor financeiro, avalia que o novo cenário exige conhecimento preciso sobre o consumidor. Ele aponta a necessidade de rever a precificação, adequar pratos e criar estratégias para aumentar a frequência dos clientes, preservando a rentabilidade.
Tayná Santiago, médica pós-graduada em Nutrologia, aborda os impactos das canetas na saúde e no bem-estar. Segundo ela, as transformações associadas ao emagrecimento alcançam outros segmentos, como academias, proteínas e serviços de estética. O comportamento é a chave para definir quem se beneficiará dessa mudança de mercado.
O evento reuniu empresários e especialistas para discutir os reflexos do avanço desses medicamentos na alimentação, no varejo e na saúde. A programação apresentou caminhos para que as empresas usem os dados na revisão de produtos e estratégias. O Sistema Comércio MS colocou a pesquisa como instrumento de orientação para o mercado.
Para bares e restaurantes, o efeito prático é claro: o cliente permanece à mesa, mas espera porções, preços e cardápios mais alinhados ao novo padrão de consumo. A adaptação é necessária para manter a competitividade e atender às novas expectativas do consumidor em Campo Grande.







