Um levantamento de 28 safras, realizado entre 1998 e 2026 no município de Dourados, revelou que cada avanço no padrão de manejo do solo eleva a produtividade relativa da soja em 11,1% no estado de Mato Grosso do Sul. A pesquisa, conduzida pela Embrapa Agropecuária Oeste, acompanha um experimento de três décadas que mapeou mais de 4,3 mil pontos de lavoura.
Manejo e produtividade
Os técnicos classificaram as áreas em quatro níveis – NM1 a NM4 – de acordo com seis critérios: tempo sem revolvimento mecânico, quantidade de palhada, histórico de rotação nos últimos três anos e índices químicos como cálcio, acidez e nutrientes nas camadas superficiais e profundas. NM1 corresponde ao método convencional antigo, com monocultivo contínuo e uso frequente de arados e grades. NM4 reúne propriedades que adotam o Sistema Plantio Direto e integração lavoura‑pastagem.
A diferença entre os extremos é marcante. As lavouras no nível básico (NM1) registraram rendimento relativo médio de 44%, enquanto os talhões classificados como NM4 atingiram 77,2% de produtividade. Em anos regulares, áreas com cobertura permanente de palha e rotação conseguiram colher até 80 sacas por hectare, ao passo que solos castigados pelo preparo tradicional chegaram a perder 100% da safra durante veranicos severos.
O pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, Júlio Cesar Salton, explicou que a cobertura vegetal funciona como uma esponja, retendo água para as raízes e reduzindo a evaporação. “Solos bem manejados armazenam mais água, oferecem melhores condições ao desenvolvimento das raízes e tornam a cultura da soja mais resistente às oscilações climáticas”, afirmou.
Benefícios no seguro
Como a falta de chuva responde por mais de 80% das indenizações de seguro agrícola no estado, o governo federal passou a premiar produtores que adotam boas práticas de manejo. No Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), os descontos variam conforme o nível de classificação.
Na soja, o produtor com solo NM4 recebe 40% de desconto pago pelo governo; NM3 garante 35%; NM2, 30%; e NM1, apenas o piso de 20%. Para a segunda safra de milho, os níveis NM3 e NM4 asseguram 50% de subvenção, NM2 oferece 45% e NM1, 40%.
Para ter direito ao benefício, o agricultor deve realizar análise de solo em laboratório credenciado. Os resultados são cadastrados em um sistema digital e repassados ao banco, cooperativa ou seguradora responsável pela apólice, que calcula o desconto final.
Além do aumento de produtividade, o manejo adequado reduz riscos financeiros, aumenta a estabilidade da produção e prepara o sistema agrícola para enfrentar eventos climáticos adversos. Os dados do estudo reforçam que investir em conservação do solo deixa de ser apenas uma recomendação ambiental e passa a representar retorno econômico direto na colheita.
O acompanhamento de 28 safras consecutivas demonstra que a prática sustentável pode ser mantida ao longo do tempo, gerando ganhos consistentes para os produtores. A Embrapa pretende ampliar a pesquisa para outras regiões do Centro‑Sul, a fim de validar os resultados em diferentes condições de solo e clima.
Enquanto isso, os agricultores de Mato Grosso do Sul já podem solicitar a análise de solo e, se classificados nos níveis superiores, usufruir dos descontos mais expressivos no seguro rural, reduzindo o impacto financeiro de eventuais secas.







