A preocupação com a saúde mental ganhou espaço na prática clínica nas últimas décadas, alcançando também o público infantojuvenil. Especialistas alertam que crianças e adolescentes enfrentam pressões diárias relacionadas a comportamento, desempenho escolar e organização, fatores que podem desencadear ou agravar transtornos psicológicos quando não são reconhecidos a tempo.
O caso da dentista Poliana Rocha ilustra esse contexto. Dedicada a uma jornada de trabalho de 12 horas, ela percebeu que o afastamento prolongado estava interferindo na rotina do filho, Natan. O menino, de acordo com a mãe, passava a aceitar situações de bullying e agressões para sentir-se incluído, comportamento interpretado posteriormente como reflexo de sobrecarga emocional e enfraquecimento do vínculo familiar.
Buscando auxílio profissional, a família recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) associado ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A identificação permitiu ajustes no convívio doméstico, reorganização de tarefas e acompanhamento terapêutico direcionado. Para Poliana, compreender as necessidades específicas do filho foi decisivo para fortalecer a relação e minimizar impactos emocionais.
Pressões cotidianas e sinais precoces
A psicóloga Gesiane Miyashiro explica que manifestações de adoecimento mental podem surgir de forma discreta. Mudanças comportamentais como isolamento, irritabilidade frequente ou perda de interesse em atividades habituais costumam aparecer gradualmente. Mesmo quando essas alterações não são bruscas, a orientação é registrar a frequência dos episódios e procurar avaliação especializada sempre que houver dúvida sobre a intensidade ou a duração dos sintomas.
Segundo profissionais da área, a rotina escolar é um dos ambientes em que os primeiros indícios podem ser observados. Questões como queda no rendimento, dificuldades de concentração e conflitos com colegas, se persistentes, merecem investigação. Pais e responsáveis, porém, muitas vezes interpretam os sinais como desobediência ou falta de esforço, adiando o início de um acompanhamento adequado.
Além da escola, o comportamento em casa fornece indicadores relevantes. Alterações no sono, apetite ou hábitos de higiene podem sinalizar que a criança ou o adolescente está vivenciando algum nível de sofrimento psíquico. Quando identificados cedo, esses desafios tornam-se mais manejáveis, pois a intervenção ocorre antes que o quadro ganhe complexidade.
Importância do diagnóstico e do suporte multidisciplinar
O TEA e o TDAH, presentes no caso de Natan, figuram entre os transtornos mais diagnosticados na infância e na adolescência. Cada condição exige estratégias específicas, que incluem acompanhamento psicológico, intervenção pedagógica adaptada e, em alguns casos, tratamento medicamentoso. A integração entre profissionais de saúde, escola e família é considerada fundamental para a evolução positiva do paciente.
A psicóloga ressalta que o processo de avaliação deve levar em conta fatores biológicos, sociais e familiares. A escuta atenta e a observação diária complementam testes padronizados aplicados em consultório. Quando os adultos de referência apresentam relatórios detalhados sobre o comportamento da criança, o diagnóstico tende a ser mais preciso, reduzindo o risco de rotulação inadequada.
Desafios para pais e cuidadores
A experiência de Poliana evidencia a dificuldade de conciliar rotina profissional intensa com a presença necessária no desenvolvimento dos filhos. Especialistas recomendam estabelecer momentos de qualidade, mesmo que curtos, em que a criança se sinta segura para compartilhar medos e frustrações. Esse diálogo ajuda a prevenir o agravamento de transtornos e reforça laços afetivos.
Em famílias que já enfrentam diagnósticos, a orientação é buscar grupos de apoio, cursos de capacitação sobre o transtorno específico e manter comunicação aberta com a equipe multiprofissional. Ajustes na rotina, como divisão de responsabilidades entre os cuidadores e criação de ambientes previsíveis, reduzem estresse e favorecem a adaptação.
Quando procurar ajuda
Indicam-se avaliações especializadas quando:
- há mudança persistente de humor ou comportamento por mais de duas semanas;
- ocorrem regressões em marcos de desenvolvimento já alcançados, como fala ou controle esfincteriano;
- crianças ou adolescentes demonstram autolesão, ideias suicidas ou aceitam violência para pertencer a grupos;
- o rendimento escolar cai de forma abrupta sem causa aparente;
- existem dificuldades severas de interação social que interferem na rotina.
A recomendação é que pais procurem inicialmente um psicólogo ou psiquiatra infantil, que poderá encaminhar a outros profissionais, como neurologistas, terapeutas ocupacionais ou fonoaudiólogos, conforme a necessidade.
Perspectivas para a prevenção
A discussão sobre saúde mental na infância e adolescência também envolve políticas públicas. Programas de formação de professores, campanhas de conscientização e aumento da oferta de serviços especializados no Sistema Único de Saúde (SUS) figuram entre as medidas apontadas por entidades de classe para reduzir subdiagnósticos e ampliar o acesso ao tratamento.
Especialistas concordam que a sensibilização de toda a comunidade é imprescindível. Quanto maior a compreensão acerca dos sinais apresentados por crianças e adolescentes, menores as chances de que demandas emocionais sejam rotuladas como simples “manha” ou “birra”. O reconhecimento precoce oferece oportunidade de cuidado integral e contribui para um desenvolvimento mais saudável.









