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Atrofia geográfica: por que olhar só o “tamanho da lesão” pode não explicar evolução

Exame de retina com foco na mácula e círculos de 1 mm e 3 mm destacados
Índices MTII e EZII avaliam tecido preservado perto da fóvea e podem melhorar o monitoramento da atrofia geográfica. Foto: Gerada por IA

Quando se fala em atrofia geográfica (GA) — uma forma avançada da degeneração macular relacionada à idade (AMD) — é comum ver estudos e notícias citando a “taxa de crescimento da área de atrofia” como principal medida de evolução. Esse indicador é muito usado em pesquisas, mas ele pode deixar de responder uma pergunta essencial para quem vive a doença: o que está acontecendo com a região central da mácula, que é crítica para a função visual?

Um trabalho publicado em Ophthalmology Science (2025) investigou exatamente esse ponto e propôs dois novos biomarcadores para acompanhar, de maneira mais direcionada, a integridade do tecido macular e dos fotorreceptores: o Macular Tissue Integrity Index (MTII) e o Ellipsoid Zone Integrity Index (EZII).

Este artigo resume e explica os achados do estudo citado, em linguagem mais simples, mantendo os detalhes técnicos apresentados pelos autores.

Entendendo o problema: por que a área total de GA pode ser “pouco específica”

A AMD é descrita no estudo como a principal causa de cegueira no mundo moderno e pode ameaçar atingir 288 milhões de pessoas até 2040. Nos estágios tardios, a doença pode se manifestar como GA ou como AMD neovascular, ambas associadas a risco de perda visual irreversível.

A GA é caracterizada pela perda progressiva do epitélio pigmentar da retina, dos fotorreceptores e da coriocapilar. Nos ensaios clínicos, a prática tradicional mede o aumento da área de GA em imagens de autofluorescência do fundo (FAF), método considerado padrão-ouro em estudos.

O ponto levantado pelos autores é que essa medida, muitas vezes:

  • não delimita com precisão a mácula central;
  • não captura bem a relação entre estrutura e função;
  • e pode não se correlacionar com mudanças de acuidade visual (VA), porque algumas lesões podem crescer mais “para fora” do que em direção à região central crítica para a visão.

E os tratamentos? Uma informação importante do contexto recente

O texto lembra que, em 2023, a FDA aprovou dois inibidores do complemento intravítreos — pegcetacoplan e avacincaptad pegol — como os primeiros tratamentos farmacológicos para GA. Os autores destacam, porém, que embora essas medicações reduzam o crescimento da lesão de GA, não foi demonstrado efeito significativo em desfechos funcionais, como BCVA (best-corrected visual acuity) ou velocidade de leitura, e que a EMA não concedeu autorização de mercado por esse motivo.

Esse contexto reforça a discussão central do artigo: medidas estruturais precisam conversar melhor com a função visual, especialmente na mácula.

A proposta do estudo: medir integridade macular onde ela importa

Em vez de acompanhar só “quanto a GA cresceu no total”, os autores propõem medir:

  1. Quanto de mácula ainda está preservada (área não-GA) perto da fóvea
  2. Quanto da zona elipsoide (EZ) está íntegra, como marcador de saúde de fotorreceptores

Essas duas medidas viraram índices:

1) MTII — Macular Tissue Integrity Index

  • Calculado em imagens de FAF
  • Mede a porcentagem de área não-GA dentro de círculos centrados na fóvea

2) EZII — Ellipsoid Zone Integrity Index

  • Calculado em imagens de OCT
  • Mede a porcentagem de zona elipsoide intacta dentro dos mesmos círculos

O estudo enfatiza duas “zonas” de avaliação, centradas na fóvea: 1 mm e 3 mm.

Como o estudo foi feito

  • Tipo: análise retrospectiva e longitudinal
  • Coorte: participantes de ensaios clínicos de GA
  • Amostra: 43 olhos de 43 participantes para FAF (e 42 para OCT, após um arquivo corrompido)
  • Comparação: índices (MTII/EZII) vs crescimento da área total de GA e mudanças em:
    • BCVA
    • LLVA (low-luminance visual acuity)

Os autores também detalham como as áreas foram delimitadas e como os círculos foram aplicados nas imagens, inclusive observando que, no FAF com grade ETDRS do software, os círculos usados tinham diâmetros 1,2 mm e 3,6 mm, enquanto no OCT os círculos considerados tinham 1 mm e 3 mm de diâmetro.

Correlações na zona central de 1 mm

  • MTII (1 mm) correlacionou com BCVA: R² = 0,20; P = 0,003
  • EZII (1 mm) correlacionou com BCVA: R² = 0,29; P < 0,001
  • Nenhum dos dois mostrou correlação significativa com LLVA nessa zona (segundo os autores).

Interpretação direta do artigo: na área mais central, MTII e EZII parecem refletir melhor aspectos ligados à BCVA.

Correlações na zona de 3 mm

  • MTII (3 mm) não apresentou associação significativa com BCVA nem LLVA (como descrito).
  • EZII (3 mm) manteve correlação com:
    • BCVA: R² = 0,17; P < 0,01
    • LLVA: R² = 0,17; P < 0,01

Interpretação direta do artigo: no anel de 3 mm, o EZII se conectou tanto com BCVA quanto com LLVA.

E a área total de GA?

O estudo relata que a área de GA, medida por FAF e por OCT, não teve correlação significativa com BCVA ou LLVA no baseline (com R² muito baixos, segundo descrito).

Um achado-chave: GA pode crescer, mas a “mácula preservada” não cai do mesmo jeitoAo comparar a variação anual:

  • GA cresceu em média cerca de ~2,0 mm²/ano (valores reportados: 1,90 ± 1,39 mm² em FAF e 1,62 ± 1,32 mm² em OCT)
  • MTII e EZII caíram cerca de 8% a 10% ao ano dentro das zonas de 1 mm e 3 mm

Mas o ponto mais importante veio depois: não houve correlação significativa entre:

  • aumento da área total de GA
    e
  • queda de MTII/EZII (R² < 0,01, conforme descrito)

Os autores ilustram padrões diferentes de progressão, como:

  • olhos com crescimento rápido da GA, mas pouca perda central (“Rapid Grower, Slow Loser”)
  • olhos com crescimento lento da GA, mas perda central importante (“Slow Grower, Rapid Loser”)

Isso reforça a ideia de heterogeneidade na progressão da GA — e a limitação de usar apenas “área total” como substituto de função visual.

O que ainda falta responder (limitações descritas pelos autores)O próprio estudo faz ressalvas importantes:

amostra pequena, o que limita generalização

  • seguimento de 1 ano pode ser curto para capturar consequências funcionais de longo prazo
  • testes funcionais como microperimetria e sensibilidade ao contraste não estavam disponíveis nessa coorte
  • o EZII depende de software específico/algoritmos ainda não amplamente disponíveis, enquanto o MTII em FAF seria mais escalável

Por que isso importa para quem acompanha GA

A mensagem central do artigo é clara: medir integridade macular perto da fóvea (por FAF e OCT) pode oferecer um jeito mais alinhado com a função visual do que olhar apenas o crescimento global da GA. MTII e EZII são apresentados como biomarcadores promissores, que ainda precisam de validação em estudos maiores e com mais tempo de acompanhamento.


FAQ

O que é MTII?
É um índice calculado na autofluorescência (FAF) que estima a porcentagem de tecido não-GA na mácula (zonas de 1 mm e 3 mm centradas na fóvea).

O que é EZII?
É um índice calculado na OCT que estima a porcentagem de zona elipsoide (EZ) intacta nas mesmas zonas, como marcador de integridade de fotorreceptores.

Por que a área total de GA pode não explicar a visão?
Porque o crescimento pode ocorrer sem atingir rapidamente a mácula central; além disso, o estudo relata ausência de correlação significativa entre GA total e BCVA/LLVA no baseline.