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Café da manhã rural impulsiona recomeço de família em Campo Grande

Um café da manhã servido apenas aos domingos em uma chácara na zona rural de Campo Grande transformou a rotina da família Nantes e se firmou como exemplo de geração de renda, acolhimento e superação. O empreendimento, batizado de No Refúgio, foi criado por Márcia Nantes em parceria com parentes próximos e conta com orientação da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) em Agroturismo do Senar/MS.

A iniciativa surgiu em 2022, depois de um período em que Márcia enfrentou crises de ansiedade e depressão, problemas que a levaram a trocar a vida urbana pela tranquilidade do campo. Filha de pais citadinos, mas com lembranças afetivas das visitas à fazenda da avó, ela decidiu buscar na área rural um reinício pessoal e profissional. A mudança ocorreu quando encontrou, ao lado do marido, uma propriedade desativada, sem estrutura e tomada pelo mato, nas proximidades do córrego Ceroula.

Mesmo diante da falta de conforto inicial — banho improvisado, dormitórios precários e nenhuma instalação adequada —, Márcia relata ter sentido paz imediata e pertencimento ao novo ambiente. Com a casa em construção, surgiu a necessidade de sustento. Foi então que a família se mobilizou: a tia Marina assumiu a cozinha, o tio Pedro colaborou nos serviços gerais e a prima Mônica passou a ajudar no atendimento aos visitantes.

Do improviso à profissionalização

O ponto de virada chegou com a primeira visita técnica do programa ATeG Agroturismo. Os consultores identificaram potencial para receber turistas antes mesmo da conclusão da reforma. Com planejamento, regularização e acompanhamento mensal, o No Refúgio abriu oficialmente as porteiras, oferecendo um ambiente seguro e organizado para o público.

Graças ao suporte, Márcia deixou de esperar pela “estrutura perfeita” e iniciou as atividades com o que já possuía. Segundo ela, a assistência do Senar/MS foi decisiva para definir cardápio, estabelecer rotinas, cumprir normas sanitárias e criar estratégias de divulgação.

A experiência dominical

O café da manhã, servido exclusivamente aos domingos, comporta até 50 visitantes por edição. A mesa traz itens preparados no fogão à lenha ou na cozinha recém-adaptada, sempre com ingredientes regionais. Entre eles estão pães e bolos caseiros, pamonha, frutas da estação, café passado na hora, pão de queijo e arroz carreteiro acompanhado de ovo, prato tradicionalmente chamado de “quebra-torto”. O destaque é a chipa frita, receita de tia Marina que se tornou carro-chefe do cardápio.

Além da refeição, o programa inclui uma trilha leve pela mata nativa. O percurso segue às margens do córrego Ceroula, permitindo pausa para contemplação, banho de rio e observação da fauna local. O trajeto foi sinalizado após orientações dos técnicos para garantir acessibilidade e segurança.

Retornos além do financeiro

Com pouco mais de um ano de funcionamento, o No Refúgio gera renda para a família e mantém viva a memória afetiva ligada à vida rural. Marina descreve que, ao cozinhar para os visitantes, sente-se como se estivesse preparando refeições para filhos e sobrinhos. Para Márcia, ofertar momentos de desaceleração e contato com a natureza é parte fundamental da proposta, sobretudo para quem vive rotina urbana acelerada e busca refúgio semelhante ao que ela própria encontrou.

A exposição boca a boca garante reservas antecipadas, e a família já planeja pequenas expansões, como aumentar a área coberta do refeitório e instalar um espaço para oficinas de culinária regional. Mesmo assim, Márcia enfatiza que o objetivo principal continua sendo oferecer um ambiente simples e acolhedor, preservando a essência que motivou o projeto.

Agroturismo em crescimento

O caso do No Refúgio reforça a tendência de produtores rurais investirem em turismo como alternativa de diversificação econômica. Conforme orienta o ATeG, propriedades familiares podem agregar valor ao criar experiências autênticas ligadas à cultura local, sem necessidade de grandes estruturas iniciais. O modelo combina geração de renda, preservação ambiental e fortalecimento de laços comunitários, fatores que despertam interesse crescente de moradores de centros urbanos.

Para a família Nantes, a iniciativa significa cura pessoal, oportunidade de trabalho e manutenção de costumes rurais. A cada domingo, o café da manhã que começou como uma necessidade interna converte-se em ponto de encontro para visitantes em busca de sossego, gastronomia regional e contato direto com a mata sul-mato-grossense.

Enquanto define novos passos, Márcia mantém o propósito original: proporcionar a outras pessoas a mesma sensação de bem-estar que redirecionou sua vida. Com apoio técnico continuado, o empreendimento segue aberto à visitação, consolidando-se como exemplo de como o agroturismo pode transformar histórias familiares e fomentar o desenvolvimento no campo.