A Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande incorporou um equipamento de raio-X ultraportátil associado a inteligência artificial (IA) para reforçar o diagnóstico de doenças respiratórias, com ênfase em tuberculose entre pessoas que vivem com HIV/Aids. O dispositivo passou a ser utilizado prioritariamente no Centro Especializado em Doenças Infectoparasitárias (Cedip) e no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), unidades de referência no atendimento a esse público.
A tecnologia foi adquirida no âmbito do projeto A Hora é Agora (AHA), iniciativa criada em 2014 para fortalecer a linha de cuidado do HIV e reduzir a mortalidade por tuberculose. O programa é resultado de cooperação entre a Fundação Oswaldo Cruz, a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, a Fiotec e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, com financiamento do Plano de Emergência do Presidente dos EUA para Alívio da Aids (PEPFAR).
O sistema, batizado de Radiografia Rápida com Inteligência Artificial (RAIA), combina um aparelho de raio-X de aproximadamente 3,5 quilos a um software de Detecção Assistida por Computador (CAD). Por ser leve, o equipamento pode ser transportado por um único profissional e montado em praticamente qualquer ambiente, permitindo a realização do exame no formato point of care, próximo ao leito do paciente ou em locais de difícil acesso.
Após a captura da imagem torácica, a plataforma de IA processa os dados e apresenta, em poucos segundos, uma avaliação preliminar sobre a presença de anormalidades pulmonares. O algoritmo foi calibrado para reconhecer mais de dez patologias, entre elas nódulos, lesões malignas, pneumonia e pneumotórax, além de sugerir a possibilidade de tuberculose com índice de acurácia estimado entre 97% e 99%.
A agilidade no retorno do resultado reduz o intervalo entre o exame e a definição da conduta clínica. De acordo com a gestão municipal, a expectativa é iniciar o tratamento de casos positivos em menor tempo e ampliar a detecção precoce de tuberculose em grupos vulneráveis, inclusive em populações que enfrentam barreiras de acesso a serviços de radiologia convencionais.
Outra característica destacada pela equipe técnica é a capacidade de atendimento a pacientes com até 300 quilos, fator que amplia o espectro de uso do aparelho. A portabilidade também facilita ações extramuros, como rastreamentos em comunidades, unidades de saúde itinerantes ou ambientes prisionais, onde a incidência de tuberculose costuma ser elevada.
Na avaliação da Secretaria Municipal de Saúde, o investimento representa um passo na modernização da rede pública ao integrar ferramentas de inteligência artificial aos fluxos assistenciais. A pasta ressalta, entretanto, que a interpretação final das imagens continua sob responsabilidade do médico radiologista ou infectologista, garantindo a validação humana do laudo antes da definição terapêutica.
Especialistas envolvidos na implementação afirmam que o RAIA foi concebido para funcionar como apoio à decisão clínica, não como substituto do profissional. O relatório gerado pelo software sinaliza áreas suspeitas e atribui probabilidades para cada achado, fornecendo subsídios para a confirmação diagnóstica por meio de exames laboratoriais ou avaliações complementares.
A adoção do equipamento em Campo Grande se soma a outras estratégias do projeto A Hora é Agora, que incluem ampliação do teste rápido para HIV, distribuição de autotestes e capacitação de equipes multiprofissionais. A iniciativa busca diminuir a transmissão do vírus, garantir o início oportuno da terapia antirretroviral e reduzir complicações associadas, como a tuberculose, que permanece entre as principais causas de óbito em pessoas com imunossupressão.
Nos próximos meses, a secretaria pretende monitorar indicadores como tempo médio entre suspeita clínica e início do tratamento, porcentagem de diagnósticos confirmados por raio-X com IA e cobertura de rastreamento em populações-chave. Os dados deverão orientar possíveis ampliações do uso da tecnologia para outras unidades da capital sul-mato-grossense.
Com a integração do raio-X portátil e do sistema de inteligência artificial, a administração municipal espera fortalecer o cuidado integral às pessoas que vivem com HIV/Aids, otimizar recursos e reduzir a sobrecarga de serviços de imagem de maior complexidade. As autoridades locais consideram que a solução terá impacto direto na vigilância de doenças pulmonares, contribuindo para melhorar a resposta da saúde pública frente a agravos respiratórios na região.









