A Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande passou a oferecer um novo formato de atendimento odontológico direcionado a pessoas em situação de rua. Por meio do programa Consultório na Rua, equipes de saúde identificam moradores em vulnerabilidade que relatam dor, infecção ou outras necessidades bucais durante as abordagens de rotina e providenciam encaminhamento imediato a unidades da rede municipal, com transporte garantido.
O reforço foi implementado após constatação de que a dor de dente figura entre as principais queixas apresentadas a médicos, enfermeiros e assistentes sociais no contato diário com esse público. A dificuldade de acesso regular aos consultórios convencionais, somada ao tempo prolongado sem intervenções, agrava quadros clínicos que poderiam ser resolvidos em estágios iniciais.
O Consultório na Rua já integra há anos a estrutura de atenção básica de Campo Grande. De segunda a sexta-feira, equipes multiprofissionais percorrem diferentes regiões da cidade oferecendo curativos, vacinação, orientações e triagem clínica no próprio local onde as pessoas em situação de rua se concentram. O novo componente, dedicado especificamente à saúde bucal, ocorre a cada quinze dias: nesse intervalo, dentistas, auxiliares e agentes de saúde avaliam a necessidade de tratamento especializado e organizam o deslocamento do paciente até o consultório odontológico mais próximo.
Ao chegar à unidade de saúde, o usuário passa por avaliação detalhada e recebe procedimentos que vão de raspagem periodontal e restaurações a pequenas cirurgias. Quando há indicação para serviços de maior complexidade, o próprio sistema municipal faz o agendamento em centros de referência. Todo o histórico é registrado no prontuário eletrônico da rede, o que permite a continuidade do cuidado em consultas subsequentes.
As ações concentram-se em pontos com maior circulação de pessoas em vulnerabilidade, entre eles a região da antiga rodoviária, a Praça Aquidauana, o entorno do bairro Nhanhá e áreas próximas ao bairro Tiradentes. Outros locais podem ser incluídos conforme a demanda observada durante o trabalho de campo. O cronograma de visitas considera horários de maior permanência da população de rua, facilitando a criação de vínculo com os profissionais.
Segundo a coordenação do programa, o principal objetivo é reduzir barreiras geográficas, financeiras e simbólicas que impedem a procura espontânea por tratamento. Para muitos usuários, o contato com o Consultório na Rua representa a primeira oportunidade de inserção no sistema público de saúde. A abordagem in loco possibilita identificar problemas antes ignorados e explicar, de forma acessível, cada etapa necessária para a resolução do quadro.
Além do impacto direto na saúde bucal, o atendimento costuma refletir em melhorias na autoestima e na disposição para buscar outros cuidados médicos. Relatos das equipes indicam que pacientes atendidos demonstram maior interesse em atualizar vacinas, retomar acompanhamento clínico ou ingressar em programas de saúde mental depois que a principal fonte de dor é eliminada.
O dentista responsável pelas triagens destaca que a remoção de focos infecciosos contribui para prevenir complicações sistêmicas, como endocardite e doenças respiratórias que podem ser desencadeadas por bactérias oriundas da cavidade oral. A inclusão de medidas preventivas — como orientação sobre higiene bucal e distribuição de escova e creme dental — faz parte do pacote de intervenções oferecido durante as visitas quinzenais.
A estratégia também funciona como elo com outros serviços da rede municipal. Após a avaliação odontológica, o paciente pode ser encaminhado para Unidades de Saúde da Família, Unidades de Pronto Atendimento ou Centros de Atenção Psicossocial, conforme necessidade identificada. Essa integração garante que usuários em situação de rua não fiquem restritos a atendimentos pontuais, mas iniciem um acompanhamento contínuo.
De acordo com a gestão municipal, a ampliação do atendimento odontológico integra um conjunto de ações voltadas a populações vulneráveis. O trabalho é executado por dentistas, auxiliares de saúde bucal, enfermeiros, técnicos de enfermagem, assistentes sociais e agentes comunitários. O transporte, realizado por veículos da própria Secretaria de Saúde, elimina o obstáculo logístico que muitas vezes impede a chegada do paciente ao consultório.
Responsável pela organização das equipes, a assistente social Giany da Conceição Costa avalia que a estratégia fortalece o princípio da equidade, garantindo atenção qualificada a quem tradicionalmente enfrenta maiores dificuldades de acesso. Já o dentista André Hayakawa de Marcos observa que a possibilidade de realizar procedimentos completos na unidade de saúde eleva a taxa de resolução dos casos. A auxiliar de saúde bucal Marli Souza de Oliveira relata mudanças visíveis de comportamento quando a dor é controlada e o paciente volta a se alimentar normalmente.
Com o registro de todos os atendimentos em sistema informatizado, as equipes conseguem monitorar retornos e verificar se o tratamento foi concluído. Quando necessário, novas visitas de busca ativa são agendadas para verificar a situação do paciente e reforçar a importância do comparecimento às consultas. A meta, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, é ampliar gradualmente a capacidade de atendimento e incluir outros pontos da cidade no roteiro do Consultório na Rua.
Ao garantir transporte, triagem especializada e atendimento continuado, a Prefeitura de Campo Grande busca diminuir o tempo de espera para resolução de problemas odontológicos entre pessoas em situação de rua, reduzir complicações decorrentes de infecções bucais e promover maior integração desse público ao conjunto de serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde no município.









