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Campo Grande sedia debate sobre efeitos do racismo na saúde mental e na prática clínica

Nos dias 15 e 16 de maio de 2026, Campo Grande será palco do evento “Subjetividades Impactadas: da história do racismo à clínica psicanalítica”, encontro que pretende analisar como o racismo, entendido como fenômeno estrutural, interfere na saúde mental e nas relações sociais. A atividade ocorrerá no Auditório da Unimed, localizado na Rua Goiás, 695, bairro Jardim dos Estados.

Organizado por profissionais da área de saúde mental, o evento propõe articular referências históricas, sociais e clínicas para compreender de que maneira o racismo molda pensamentos, emoções e comportamentos. A programação prevê exposições teóricas, apresentação de casos e discussões em grupo, com foco na forma como experiências raciais atravessam a subjetividade dos indivíduos atendidos em consultório.

A psicanalista Luziclaire Sanches Colnaghi, uma das responsáveis pela iniciativa, reforça que o debate busca ampliar a visibilidade de desigualdades que persistem no país. Segundo ela, embora mais da metade da população brasileira se declare negra ou parda, essa maioria permanece sub-representada em espaços de poder, renda e prestígio social. Para a profissional, compreender essa disparidade é fundamental para que a clínica esteja preparada para acolher os impactos psíquicos gerados por essas barreiras.

Colnaghi observa ainda que o racismo não se restringe a episódios de violência explícita. Ao penetrar de forma cotidiana e muitas vezes silenciosa na vida das pessoas, esse mecanismo social pode desencadear sintomas como ansiedade, depressão, baixa autoestima e sentimentos de exclusão. Tais manifestações, segundo a psicanalista, chegam ao consultório revestidas de narrativas individuais, mas estão vinculadas a processos coletivos que estruturam o psiquismo.

Além de Colnaghi, o encontro contará com a participação da psicóloga e psicanalista Josiane Barbosa Oliveira, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto e integrante do Grupo Sankofa, coletivo dedicado à equidade racial. A convidada deverá apresentar reflexões sobre a prática clínica com pacientes negros e negras, destacando recursos teóricos que auxiliam na identificação de angústias originadas por experiências de discriminação racial.

Os organizadores pretendem percorrer a trajetória histórica do racismo no Brasil, desde o período colonial até as formas atuais de desigualdade. O objetivo é demonstrar como essa herança se reproduz em políticas públicas, no acesso ao trabalho, na distribuição de renda e nos padrões de convivência social. A análise histórica funcionará como base para discutir o manejo clínico do sofrimento psíquico decorrente dessas vivências.

A programação ocorrerá em dois períodos: na sexta-feira, 15 de maio, das 19h às 22h, e no sábado, 16 de maio, das 9h às 12h. Interessados podem se inscrever on-line; o valor de participação é de R$ 150 para pagamentos efetuados até 15 de abril. As vagas são limitadas, e o evento emite certificado de presença aos participantes.

Segundo a comissão organizadora, o público-alvo inclui psicólogos, psicanalistas, estudantes de saúde mental, educadores e demais profissionais interessados em compreender a relação entre racismo e subjetividade. A expectativa é fomentar discussões que ultrapassem o espaço acadêmico, contribuindo para a formação de redes de apoio e cuidado capazes de reconhecer a influência das condições sociais na saúde psíquica.

O encontro não se restringirá a exposições teóricas. Estão previstas dinâmicas que aproximam a discussão da prática cotidiana, como análise de filmes curtos, estudos de caso clínico e relatos de experiências em serviços comunitários. Essa combinação de formatos procura demonstrar a multiforme presença do racismo na vida social e indicar estratégias de intervenção que considerem tanto o universo interno dos pacientes quanto o contexto sociocultural em que estão inseridos.

A organização ressalta que a abordagem psicanalítica adotada não pretende oferecer respostas prontas, mas criar um espaço de escuta e reflexão que permita aos profissionais reverem técnicas de atendimento a partir de marcadores de raça. Dessa forma, os participantes poderão aprimorar estratégias de acolhimento, reconhecer sinais de sofrimento relacionados a discriminação e desenvolver práticas que favoreçam a reparação simbólica e o fortalecimento da autoestima.

Com duração total de seis horas, distribuídas entre palestras e mesas de debate, o evento “Subjetividades Impactadas” se propõe a contribuir para a construção de um olhar clínico mais sensível às múltiplas formas de desigualdade racial existentes no Brasil. Ao reunir especialistas e interessados em saúde mental, a iniciativa busca ampliar o repertório teórico e técnico dos profissionais, tornando a prática clínica um espaço mais capaz de enfrentar os desafios impostos pelo racismo estrutural.

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