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Casal rural comemora 60 anos de casamento marcado por fé, trabalho e união

Um vínculo iniciado no interior de Mato Grosso do Sul há seis décadas se mantém sólido e inspira quatro gerações da mesma família. Aos 88 anos, Desidério e, aos 86, Efigênia celebram 60 anos de casamento relembrando uma trajetória construída em meio a lavouras, escassez de recursos e forte compromisso religioso.

O casal firmou união civil e religiosa em 1964, quando a região ainda concentrava grande parte da população na zona rural. Ele havia concluído apenas a segunda série do ensino primário e trabalhava como diarista nas plantações. Ela, sem acesso a escolarização formal, complementava a renda lavando roupas para vizinhos. Dez meses depois da cerimônia, nasceu o primeiro dos filhos, abrindo um ciclo familiar que hoje inclui netos e bisnetos.

Os primeiros anos foram marcados por severas limitações financeiras. Segundo relatos da família, a base da alimentação incluía mandioca cozida, ovo e abóbora, preparados de diferentes maneiras para suprir as três refeições diárias. Mesmo em períodos de maior aperto, quando o cardápio não variava, ambos relatam que não cogitaram desistir da vida em comum.

A convicção em seguir juntos, de acordo com o casal, foi sustentada pela fé cristã, praticada cotidianamente. Desidério e Efigênia atribuem a religião a força necessária para enfrentar períodos de fome, falta de agasalho e jornadas exaustivas no trabalho rural. Essa mesma referência espiritual se repetiu ao longo das décadas, tornando‐se elemento central da educação dos filhos.

Efigênia não conheceu os pais biológicos e passou a infância em casas de terceiros, onde exerceu funções domésticas desde os 14 anos. O histórico, marcado pela ausência de laços familiares estáveis, levou a diarista a estabelecer como meta formar a própria família assim que encontrasse um companheiro. Ao conhecer Desidério, ambos decidiram se comprometer “até que a morte os separasse”, compromisso que, segundo eles, nunca foi colocado em dúvida.

Com o crescimento dos filhos, o exemplo de convivência pacífica tornou-se referência dentro da residência. Os descendentes afirmam que nunca presenciaram discussões acaloradas entre os pais, mesmo nas fases mais críticas. Em dias de frio intenso, como relatam, o casal permanecia ao redor do fogo improvisado no chão para disponibilizar os únicos cobertores às crianças. Já adultos, muitos dos filhos e netos atribuem a esse comportamento a compreensão de que respeito e cooperação são fundamentais para a manutenção de um lar.

Além da dimensão afetiva, a união produziu impacto material. Conforme os filhos alcançavam idade para contribuir financeiramente, passaram a trabalhar em atividades agrícolas ou em serviços urbanos, ajudando a complementar o orçamento. A participação coletiva favoreceu a ampliação da casa, a compra de pequenos bens e a formação educacional dos mais novos, possibilitando a alguns cursar o ensino médio e ingressar no mercado formal.

Atualmente, a família se reúne para marcar a data simbólica de 60 anos, comemorando não apenas a longevidade do matrimônio, mas também o legado transmitido. Os netos, com idades entre 17 e 27 anos, descrevem o relacionamento dos avós como exemplo de perseverança em um contexto em que muitos casamentos não ultrapassam uma década. A convivência diária entre o casal, os momentos de oração e a atenção dispensada um ao outro são frequentemente citados por eles como modelo de cuidado mútuo.

Mesmo após seis décadas, a rotina de Desidério e Efigênia mantém traços originados na vida rural. O preparo de alimentos no fogão a lenha, o cultivo de pequenas hortaliças e a distribuição de tarefas domésticas permanecem presentes. O casal afirma que tais práticas reforçam a sensação de propósito compartilhado, elemento considerado indispensável para a continuidade do vínculo conjugal.

Para marcar a celebração, filhos e netos organizaram um encontro em que recordações fotográficas foram expostas, documentando desde os primeiros anos na roça até as conquistas mais recentes dos membros mais jovens. A iniciativa também serviu para registrar depoimentos sobre o impacto do relacionamento dos patriarcas na formação ética e emocional da família.

Questionado sobre o principal ensinamento deixado pelas seis décadas de convivência, Desidério resume em uma palavra: amor. Efigênia complementa mencionando atitudes como silêncio, respeito e cuidado diário, fatores que, segundo ela, evitaram conflitos e promoveram harmonia dentro de casa.

Ao final da comemoração, ambos reforçaram que a gratidão pela vida e pela família é renovada a cada amanhecer. Entre histórias de superação da pobreza, escolhas compartilhadas e oração constante, a dupla encerra o sexto decênio de união reafirmando o compromisso assumido em 1964: seguir juntos, independentemente das circunstâncias.

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