Uma fêmea de cateto (Pecari tajacu) transferida do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) para o Bioparque Pantanal, em Campo Grande, passou a viver em um recinto definitivo após avaliação que apontou impossibilidade de retorno à natureza. A mudança ocorreu na segunda-feira, 23, depois de técnicos concluírem que o contato frequente com pessoas comprometeu o desenvolvimento de comportamentos essenciais para a sobrevivência em ambiente silvestre.
Apelidada de Flora, a fêmea chegou ao CRAS ainda filhote, entregue por particulares que a encontraram sozinha. Segundo a equipe responsável, a interação humana desde os primeiros dias de vida impediu a aprendizagem de habilidades como procura autônoma de alimento, reconhecimento de predadores e socialização com indivíduos da mesma espécie. Nessa condição, a soltura representaria risco elevado de morte por fome, predadores ou conflito com atividades humanas.
Diante do diagnóstico, o CRAS buscou uma instituição com infraestrutura apropriada para receber o animal de forma permanente. O Bioparque Pantanal foi indicado por dispor de recintos externos que reproduzem aspectos do habitat natural, acesso a acompanhamento veterinário diário e programas de educação ambiental que utilizam animais irrecuperáveis como ferramenta didática.
Antes da transferência, Flora passou por exames clínicos completos, coleta de amostras laboratoriais, registro de peso e procedimentos sanitários de rotina, entre eles desverminação. A preparação seguiu protocolo que busca minimizar estresse, garantir transporte seguro e reduzir o risco de transmissão de patógenos entre instalações.
Já instalada no novo endereço, a fêmea ocupa um compartimento com solo natural, vegetação nativa, curso de água e área de lama, recurso importante para termorregulação em dias quentes. O espaço foi projetado para estimular comportamentos naturais, possibilitando escavação, forrageamento e banho de lama, práticas comuns da espécie no Pantanal e no Cerrado.
Profissionais do manejo acompanham a adaptação por meio de observações diárias. Os primeiros registros indicam exploração ativa do recinto, consumo de alimento oferecido e resposta positiva aos cuidadores. Esse acompanhamento inclui monitoramento de peso, avaliação de condicionamento físico e verificação de sinais de estresse ou enfermidade.
O cateto, também conhecido como caititu ou porco-do-mato, distribui-se por diversos biomas brasileiros e exerce papel importante na dispersão de sementes. Contudo, indivíduos criados com interferência humana geralmente não conseguem reintegrar-se a grupos selvagens, perdem reflexos de fuga e podem buscar alimento em áreas habitadas, o que amplia o risco de atropelamentos ou conflitos com produtores rurais.
Nesse contexto, a manutenção em cativeiro controlado torna-se alternativa para assegurar bem-estar e longevidade desses animais. No Bioparque Pantanal, Flora integra um conjunto de exemplares que, impossibilitados de soltura, participam de ações de pesquisa, conservação ex situ e sensibilização do público sobre a fauna regional.
Além do cuidado individual, as informações coletadas durante o monitoramento contribuem para estudos sobre comportamento de espécies que não retornam à natureza. Os dados auxiliam no aprimoramento de protocolos de reabilitação, manejo alimentar e enriquecimento ambiental, beneficiando outros centros de fauna no país.
O Bioparque mantém equipes multidisciplinares formadas por biólogos, veterinários e tratadores responsáveis por dietas balanceadas, controle sanitário e atividades que reduzem o tédio em confinamento. Entre as ações, estão distribuição de alimentos em locais variados para incentivar busca, instalação de troncos e objetos que simulam obstáculos naturais e oferta de banhos de lama controlados.
Flora permanecerá sob avaliação constante para ajustes na rotina e no espaço ocupado. Caso o comportamento revele necessidade de estímulos adicionais, o recinto poderá receber novos elementos ou alterações de paisagismo. O objetivo é garantir qualidade de vida equivalente à que teria em liberdade, dentro dos limites de um ambiente seguro e supervisionado.
Com a chegada da fêmea, o Bioparque Pantanal reforça o papel de instituição de apoio a animais silvestres que não podem ser soltos. A iniciativa também amplia as possibilidades de educação ambiental para visitantes, que têm a oportunidade de conhecer espécies nativas e compreender os impactos do contato humano inadequado na vida selvagem.








