Executivos da indústria florestal e do segmento de bioenergia participaram, em Campo Grande, de um debate sobre estratégias de crescimento e rentabilidade durante o Amcham CEO Dinner, evento inserido na 8ª edição do RCN em Ação. Reunidos no painel “Visão Executiva: Como equilibrar margem e crescimento”, os representantes analisaram as perspectivas de investimento em Mato Grosso do Sul, destacando a necessidade de planejamento de longo prazo, capital compatível com projetos de maturação extensa e melhorias na infraestrutura logística e social das regiões que recebem novos empreendimentos.
Investimentos florestais demandam capital de longo prazo
O diretor executivo da Ramires Reflorestamentos, Luiz Ramires Júnior, ressaltou que a silvicultura exige ciclos extensos, de aproximadamente sete anos até a primeira colheita, o que impõe a busca por financiamentos de prazo igualmente longo. Para o executivo, a principal dificuldade está em alinhar a estrutura de capital ao ritmo do retorno esperado; empréstimos de curto prazo, segundo ele, podem comprometer a viabilidade do negócio e reduzir margens.
Dados apresentados durante o painel indicam que Mato Grosso do Sul possui cerca de 2 milhões de hectares de florestas plantadas, principalmente de eucalipto destinado ao suprimento industrial. O estado concentra um dos maiores polos de celulose do país, com três fábricas instaladas no município de Três Lagoas e outras unidades em implantação. Esse avanço amplia a demanda por madeira, incentiva novos plantios e consolida a cadeia produtiva regional.
O executivo também mencionou a competitividade brasileira na área florestal. De acordo com ele, o país detém produtividade diferenciada no cultivo de eucalipto, resultado de condições climáticas favoráveis, tecnologia aplicada e ganhos contínuos de eficiência. Esse cenário, na visão do setor, contribui para atrair novos projetos industriais e expandir a participação do estado no mercado global de celulose.
Bioenergia enfrenta volatilidade de preços e depende de políticas públicas
O presidente da Biosul, Amaury Pekelman, observou que as usinas sucroenergéticas atuam em um ambiente influenciado por fatores externos, como o preço da gasolina e as oscilações do açúcar nas bolsas internacionais. Essa variação exige elevada eficiência de custos e flexibilidade operacional. Pekelman frisou que a remuneração das plantas produtoras de etanol e açúcar está diretamente ligada à dinâmica de oferta e demanda mundial, o que requer permanente adaptação estratégica.
Atualmente, Mato Grosso do Sul abriga 22 usinas em operação. Elas produzem etanol, açúcar e energia elétrica a partir da biomassa resultante da cana-de-açúcar. A possibilidade de alternar o mix entre etanol e açúcar, conforme as condições de mercado, é apontada como um mecanismo relevante para preservar margens e garantir a sustentabilidade econômica do setor.
Condições favoráveis e gargalos a superar
Tanto o segmento florestal quanto o de bioenergia consideram que o estado reúne vantagens competitivas, como disponibilidade de terras, clima propício e um ambiente regulatório que estimula investimentos industriais. Entretanto, a expansão projetada requer soluções para questões estruturais. Entre as prioridades listadas pelos participantes estão a melhoria da logística para escoamento de produção, a ampliação de moradias e a oferta de serviços públicos em municípios que recebem grandes projetos.
Foi enfatizado que o crescimento industrial provoca aumento populacional repentino em determinadas localidades, gerando demanda adicional por escolas, creches, unidades de saúde e infraestrutura urbana. Para os executivos, a articulação entre empresas privadas, governos municipais, estadual e federal, bem como instituições financeiras, será decisiva para alinhar os investimentos produtivos a iniciativas de desenvolvimento social e urbano.
Planejamento integrado para sustentar a expansão
Os debatedores convergiram na avaliação de que a combinação de planejamento estratégico, capital de longo prazo e políticas públicas adequadas é essencial para sustentar o ritmo de crescimento da economia sul-mato-grossense. Projetos de grande porte, como novas fábricas de celulose ou ampliações de usinas de etanol, exigem segurança regulatória, linhas de crédito compatíveis com prazos de maturação e infraestrutura eficiente para reduzir custos logísticos.
O painel integrou a programação do Amcham CEO Dinner, encontro que abriu o calendário empresarial de 2026 do projeto RCN em Ação, promovido pelo Grupo RCN em parceria com a Amcham Mato Grosso do Sul. Além de compartilhar diagnósticos e perspectivas, o evento buscou estimular a cooperação entre setores produtivos, agentes públicos e entidades de fomento, visando consolidar Mato Grosso do Sul como polo de referência em celulose e bioenergia.
Ao final da discussão, ficou claro que as oportunidades de expansão são significativas, mas a captura plena desses benefícios dependerá da capacidade de mobilizar recursos financeiros de longo prazo, aprimorar a logística estadual e oferecer infraestrutura social adequada nas áreas de influência dos novos empreendimentos. O desafio, portanto, transcende o cálculo de margens e passa pela construção de um ambiente sustentável para o desenvolvimento industrial no estado.









