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Certificação para China cria novo corredor logístico e pode ampliar exportações de soja e milho via Porto Murtinho

A habilitação do terminal portuário operado pelo Grupo FV em Porto Murtinho, no sul de Mato Grosso do Sul, para embarcar soja e milho com destino à China abre um corredor logístico adicional para o agronegócio estadual. A avaliação é da diretora financeira (CFO) do grupo, Rubia Cynara, que participou nesta terça-feira do programa “Agro é Massa”, da rádio Massa FM.

De acordo com a executiva, a certificação amplia as alternativas das tradings que já utilizam o terminal fluvial e reduz custos operacionais em relação a portos marítimos mais congestionados, como Santos (SP) e Paranaguá (PR). A nova habilitação, ressaltou, não substitui a rota tradicional de embarques rumo à Argentina, utilizada pela companhia desde 2016, mas adiciona um destino estratégico para diversificar o fluxo e ampliar a competitividade dos grãos produzidos em Mato Grosso do Sul.

O corredor logístico continua apoiado na hidrovia Paraguai–Paraná. Nesse trajeto, barcaças partem de Porto Murtinho e navegam até portos marítimos, onde a carga segue para os compradores externos. Até agora, o principal destino era o polo industrial de Rosário, na Argentina, que reúne dezenas de multinacionais especializadas no esmagamento de soja. Segundo Rubia, o país vizinho, maior exportador mundial de farelo, apresenta demanda expressiva por oleaginosa brasileira, especialmente em anos de quebra de safra local. Já houve temporadas em que a importação argentina superou 700 mil toneladas.

Agora, com a permissão para enviar soja e milho à China, o terminal pode estruturar operações em diferentes momentos do ano, ajustando-se a variações de câmbio, prêmio de exportação e preços internacionais. “Quanto mais mercados disponíveis, maior a competitividade”, pontuou a dirigente, ao comentar que a escolha do destino dependerá das condições do dólar e das cotações na Bolsa de Chicago.

O desempenho do terminal em 2023 dá dimensão do potencial de crescimento. No ano da última safra cheia, foram embarcadas 1,63 milhão de toneladas, volume equivalente a 12% da produção estadual de soja. A estrutura operou em capacidade máxima, recebendo entre 310 e 315 caminhões por dia, funcionando 24 horas e movimentando em média 13 mil toneladas diárias.

Para sustentar o aumento de fluxo previsto com o novo mercado, o Grupo FV anunciou a instalação de uma unidade de recebimento em Jardim, município situado a cerca de 200 quilômetros de Porto Murtinho. O ponto adicional servirá como área de apoio para armazenagem e expedição, aliviando a pressão sobre o terminal fluvial nos períodos de maior concentração de colheita.

No cenário internacional, Rubia observou que a demanda chinesa manteve prêmios atrativos ao longo de 2023, mesmo diante das oscilações cambiais. Ela acrescentou que o setor acompanha a possibilidade de normalização das relações comerciais entre China e Estados Unidos, fato que pode reorganizar o mercado global da soja a partir de 2026. No ano passado, 82% da soja negociada pelo Grupo FV teve como destino o exterior, índice considerado consistente pela companhia.

Quanto à safra atual, a CFO relatou que as condições climáticas no sul de Mato Grosso do Sul favoreceram o desenvolvimento das lavouras, mas os preços internos não sinalizam tendência de valorização. Em consequência, o produtor tem adiado a fixação de negócios. Três anos atrás, era comum registrar vendas antecipadas de 40% a 50% da colheita; no momento, o percentual não chega a 15%, e a estratégia de busca por melhores cotações se concentra no mercado spot.

Segundo Rubia, a habilitação do terminal para a China atende a uma demanda recorrente das empresas que operam grãos na região e confere maior flexibilidade logística ao Estado. A executiva afirma que o grupo pretende manter o corredor aberto para os atuais usuários e, ao mesmo tempo, atrair novos participantes que buscam alternativas aos grandes portos marítimos.

Embora não projete um percentual fixo de participação do terminal no escoamento estadual, a dirigente avalia que a entrada de novos mercados pode alterar o ritmo de embarques ao longo do ano, equilibrando períodos de pico e de baixa. Essa diversificação, reforçou, contribui para diluir riscos e otimizar custos logísticos em um momento de maior competição no comércio global de grãos.

Com a certificação, o porto sul-mato-grossense se junta a um número restrito de instalações brasileiras aptas a embarcar soja e milho diretamente para o principal comprador mundial dessas commodities. O movimento, segundo analistas ouvidos pelo setor, tende a reduzir a dependência de corredores tradicionais localizados no Sudeste e no Sul do país, além de estimular investimentos em infraestrutura fluvial na Bacia do Paraguai.

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