A proximidade da temporada de influenza e o avanço do surto de chikungunya em Dourados elevam o nível de alerta em Mato Grosso do Sul. A combinação das duas enfermidades, considerada provável nos próximos meses, pode sobrecarregar unidades básicas, serviços de atendimento de urgência e leitos hospitalares em todo o estado, segundo avaliação do infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda.
Risco ampliado para a população idosa
Entre os grupos de maior vulnerabilidade, os idosos exigem atenção redobrada. Estudos indicam que, com o envelhecimento, a resposta imunológica se torna mais lenta e menos eficiente contra diversos patógenos. Essa característica aumenta a probabilidade de hospitalização tanto por influenza quanto por complicações de outras infecções respiratórias. A mesma preocupação vale para arboviroses, incluindo a chikungunya, cujo quadro clínico pode ser agravado pela idade avançada e por comorbidades.
Nova vacina contra gripe em desenvolvimento
Para reduzir riscos nessa faixa etária, o Instituto Butantan testa uma nova formulação de vacina contra influenza. O imunizante, ainda em fase de estudo, incorpora um adjuvante destinado a estimular de forma mais intensa o sistema imune. A meta é produzir proteção superior à obtida com a vacina de alta dose hoje disponível para o público idoso. Se os resultados comprovaram eficácia adequada, a expectativa de Croda é que o produto chegue ao Sistema Único de Saúde (SUS) a partir de 2027.
Cobertura vacinal abaixo do necessário
Ainda de acordo com o pesquisador, o boletim InfoGripe da Fiocruz aponta tendência de incremento prolongado das notificações por influenza em 22 estados brasileiros. Após dois anos de coberturas vacinais reduzidas, os percentuais em idosos, gestantes e crianças menores de seis anos permanecem em torno de 50%, quando o ideal seria 90%. A baixa adesão mantém um contingente significativo de pessoas suscetíveis. A circulação de uma nova variante de H3N2, já associada a aumento de hospitalizações e óbitos no hemisfério norte, reforça a preocupação com casos graves entre maio e agosto de 2026.
Mitos sobre imunização anual
Especialistas lembram que a vacina contra gripe deve ser tomada todos os anos. A proteção diminui com o tempo, e a composição do imunizante é atualizada para acompanhar as cepas predominantes. Dessa forma, mesmo quem contraiu influenza em temporadas anteriores precisa se vacinar novamente, especialmente indivíduos acima de 60 anos e crianças pequenas.
Situação da chikungunya no estado
O cenário das arboviroses também inspira cautela. Depois de registrar surtos expressivos em Ponta Porã em 2023 e em Fátima do Sul no início de 2026, Mato Grosso do Sul observa expansão do vírus chikungunya em Dourados. Já são mais de 35 internações na cidade, número considerado elevado para o estágio atual da epidemia. Croda projeta que diversos municípios poderão enfrentar transmissões significativas nos próximos dois a três anos, sobretudo nos meses de maior calor e chuva, entre janeiro e abril, quando a proliferação do Aedes aegypti é intensificada.
Com a chegada do outono, a redução das temperaturas costuma diminuir a densidade do vetor, mas o vírus deve continuar circulando em níveis baixos até o retorno do período quente. Dessa forma, autoridades sanitárias trabalham com a possibilidade de novos picos a partir do próximo verão.
Pressão sobre leitos hospitalares
A conjugação de surtos de chikungunya e influenza levanta a perspectiva de demanda simultânea por leitos clínicos e de terapia intensiva. O panorama mais crítico envolve pacientes idosos ou com doenças crônicas, grupo que responde por grande parte das complicações graves de ambas as enfermidades. Sem elevação rápida da cobertura vacinal contra gripe e sem reforço das ações para eliminação de criadouros do mosquito, hospitais estaduais e municipais podem enfrentar lotação acima da capacidade, alerta o pesquisador.
Medidas imediatas de prevenção
Para reduzir a pressão sobre o sistema, profissionais de saúde recomendam:
- Vacinação contra influenza, disponível na rede pública para grupos prioritários e, em algumas localidades, para a população em geral;
- Eliminação de recipientes que acumulem água, reduzindo a proliferação do Aedes aegypti;
- Uso de repelentes, telas e roupas que cubram braços e pernas em áreas de transmissão de arboviroses;
- Busca precoce por atendimento médico em caso de febre alta, dores articulares intensas ou sintomas respiratórios persistentes.
Papel da pesquisa e de estratégias de controle
Croda cita iniciativas que demonstram o impacto direto da ciência na mitigação de epidemias. Em Dourados, um estudo vacinal contra dengue alcançou 92 mil habitantes e contribuiu para reduzir casos da doença. Já em Campo Grande, o projeto Wolbachia — técnica que libera mosquitos com bactéria capaz de inibir a transmissão de vírus — tem colaborado para manter baixos os índices de dengue e chikungunya.
Para o pesquisador, investimentos contínuos em desenvolvimento tecnológico, produção de vacinas nacionais e ampliação de programas de controle vetorial são essenciais para evitar hospitalizações, salvar vidas e impedir a saturação dos serviços de saúde em Mato Grosso do Sul e em todo o país.








