As comunidades indígenas Brejão, Cabeceira, Água Branca, Taboquinha e Vila Atikum, todas situadas em Nioaque (MS), apresentaram no sábado (29) o Plano de Visitação voltado ao etnoturismo. O documento estabelece diretrizes para geração de renda, valorização cultural e fortalecimento da governança nas aldeias.
O território abrange 1.533 moradores das etnias Terena e Atikum. Desse total, 300 indígenas participaram de um processo de capacitação que se estendeu por 11 meses. Durante esse período, foram realizados diagnósticos, oficinas, orientações coletivas e a elaboração de novos produtos turísticos.
Os trabalhos contaram com o apoio do Sebrae-MS e da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur). As instituições promoveram treinamentos técnicos e de gestão, implantaram protocolos de segurança turística, auxiliaram na consolidação de produtos comunitários e traçaram estratégias específicas para cada aldeia, de acordo com suas características e necessidades.
A iniciativa tem como base o etnoturismo, segmento que prioriza a interação respeitosa entre visitantes e comunidades tradicionais, oferecendo experiências relacionadas à cultura, ao modo de vida e ao ambiente natural dos povos anfitriões. O plano recém-entregue define roteiros, normas de recepção, procedimentos de segurança e orientações para comercialização de artesanato, gastronomia e atividades culturais.
Capacitação abre novas oportunidades
Muitos moradores já percebem resultados práticos. É o caso de Maria Madalena Viegas, da Aldeia Brejão. Após frequentar os cursos, ela transformou frutas nativas em novos produtos com potencial comercial, como o sorvete de jabuticada. Antes, o consumo era restrito ao próprio núcleo familiar. Agora, a produção foi ampliada para atender visitantes e pontos de venda externos.
Ela também diversificou a linha de alimentos, que incluía pães, farinha de mandioca e polvilho, e passou a oferecer sorvetes de frutos regionais e pratos à base de maxixe. Segundo a moradora, a melhora financeira já é perceptível, sobretudo na capacidade de adquirir insumos no mercado e reinvestir na própria produção.
Apoio institucional e visão de futuro
Durante a apresentação, lideranças comunitárias, gestores públicos e representantes das entidades parceiras destacaram a relevância do etnoturismo para o desenvolvimento econômico e sociocultural de Nioaque. O prefeito André Guimarães classificou o projeto como um avanço no incentivo ao empreendedorismo indígena e ressaltou o potencial de geração de emprego e renda dentro das aldeias.
O cacique da Aldeia Brejão sublinhou que a atividade turística fortalece tradições e reforça o orgulho cultural. Para ele, abrir as portas da comunidade aos visitantes significa divulgar a riqueza da natureza local e o saber ancestral dos povos Terena e Atikum, ao mesmo tempo em que se cria uma fonte sustentável de recursos.
Na avaliação do diretor-superintendente do Sebrae-MS, Cláudio Mendonça, o trabalho de quase um ano consolidou um modelo de turismo seguro e estruturado. Ele destaca a adoção de protocolos de alimentação, hospedagem e condução de grupos, fatores considerados essenciais para atrair turistas e garantir experiências de qualidade sem comprometer os valores comunitários.
Roteiros e produtos turísticos
O Plano de Visitação detalha rotas que incluem apresentações culturais, trilhas, vivências agrícolas, oficinas de artesanato e degustação de pratos típicos. Cada aldeia recebeu orientações específicas para organizar a recepção de visitantes, definir preços e estabelecer horários, sempre respeitando a rotina local e a capacidade de carga ambiental.
Além do turismo de experiência, o documento prevê a venda de produtos como cestarias, pinturas, vestimentas tradicionais, mel, farinhas e doces regionais. A estratégia busca agregar valor à produção artesanal e ampliar o mercado consumidor, ao mesmo tempo em que preserva as técnicas e matérias-primas utilizadas pelas comunidades.
Perspectivas de longo prazo
Com a entrega oficial do Plano de Visitação, as aldeias de Nioaque entram em uma nova fase de consolidação do etnoturismo. O objetivo é criar um fluxo contínuo de visitantes ao longo do ano, reduzindo a dependência de datas festivas e fortalecendo a administração comunitária dos recursos obtidos.
Os próximos passos incluem a divulgação dos roteiros em feiras especializadas, a formalização de parcerias com agências de viagem e a capacitação contínua de guias locais. A expectativa é que o modelo implantado sirva de referência para outras regiões do Mato Grosso do Sul que buscam unir preservação cultural e desenvolvimento econômico.
Ao conectar visitantes às tradições dos povos Terena e Atikum, o etnoturismo se apresenta como instrumento de sustentabilidade, garantindo autonomia financeira às famílias e assegurando a transmissão de conhecimentos para as futuras gerações.









