Paranaíba, no interior sul-mato-grossense, foi palco de um encontro musical pouco comum na noite de ontem. Três orquestras de flauta doce dividiram o palco do salão do Lions Clube e atraíram um público numeroso, formado por moradores de diferentes faixas etárias. O concerto apresentou um repertório que transitou entre canções folclóricas infantis, cantigas de roda e obras eruditas assinadas por compositores como Antônio Vivaldi e John Baston.
A apresentação coletiva reuniu a Orquestra Paranaibense de Flauta Doce, composta por adolescentes da cidade, e os grupos Sopro Novo Paulista e Sopro Novo Carioca, ambos vinculados à Fundação Sopro Novo Yamaha, braço social da Yamaha Musical. Responsável por cerca de 25% da produção mundial de instrumentos, a multinacional apoia iniciativas de educação musical em todo o país por meio dessa fundação.
Com o salão lotado, o programa teve início com uma sequência de cantigas tradicionais que habitualmente fazem parte do universo infantil brasileiro. As melodias, interpretadas em arranjos para flauta doce, foram seguidas por peças barrocas, entre elas trechos de concertos de Vivaldi e composições de Baston. A alternância entre o folclore e a música de concerto manteve a plateia atenta durante toda a noite.
Além da vertente artística, o evento serviu para reconhecer o trabalho de pessoas engajadas na promoção da cultura local. Autoridades e personalidades receberam lembranças de agradecimento no intervalo do espetáculo. Entre as homenageadas estava a professora Vera Gonsales, idealizadora do concerto e responsável por oferecer aulas gratuitas de música a crianças e jovens de Paranaíba. Segundo ela, a realização da apresentação conjunta era um projeto aguardado havia 15 anos.
A Fundação Sopro Novo Yamaha esteve representada pela diretora artística, Cristal Velloso, acompanhada do diretor executivo, Nikimura. Ambos acompanharam todas as execuções e conversaram com o público sobre a importância do ensino musical na formação integral dos estudantes. Segundo Velloso, a disciplina perdeu espaço nas escolas brasileiras na década de 1970, quando foi substituída pelo componente de educação artística, fato que, na avaliação dela, diminuiu o protagonismo da música nos currículos.
Ao comentar os impactos do aprendizado sonoro, a diretora observou que a prática instrumental favorece a plasticidade cerebral, contribui para o desenvolvimento cognitivo e fortalece competências socioemocionais. Ela enfatizou que tocar em grupo estimula a escuta ativa, a convivência e o respeito mútuo, competências consideradas essenciais no contexto social contemporâneo.
Dentro da metodologia aplicada pela Fundação Sopro Novo, o trabalho começa com a formação de adultos que, posteriormente, multiplicam o conteúdo entre crianças. Em duas décadas, mais de 15 mil professores foram capacitados, alcançando cerca de 800 mil alunos alfabetizados musicalmente. As atividades estão presentes em mais de 180 municípios, incluindo capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Teresina.
Velloso ressaltou que o apoio do poder público é decisivo para ampliar o acesso de estudantes ao ensino musical. De acordo com a diretora, parcerias com administrações municipais e estaduais facilitam a aquisição de instrumentos, a qualificação de profissionais e a manutenção de projetos pedagógicos recorrentes.
O concerto em Paranaíba também evidenciou a relevância da flauta doce como porta de entrada para a educação musical. O instrumento, de fácil manuseio e custo relativamente baixo, permite que aprendizes desenvolvam leitura de partitura, percepção rítmica e entonação antes de migrar para outras famílias de instrumentos, se desejarem. Essa característica explica a escolha da flauta doce como foco principal das orquestras ligadas à fundação.
Durante toda a noite, o público revezou aplausos entusiasmados a cada bloco do repertório. Muitas famílias permaneceram até o último número, quando as três formações se reuniram no palco para executar, em conjunto, uma peça do período barroco. O arranjo contou com múltiplos naipes de flautas soprano, contralto, tenor e baixo, reforçando a sonoridade do conjunto e fechando a programação sob clima festivo.
Com a positiva repercussão local, os organizadores avaliam a possibilidade de transformar o encontro em iniciativa anual. A ideia é incluir oficinas de capacitação durante o dia e concertos abertos à comunidade à noite, ampliando o alcance artístico e pedagógico do projeto. Embora ainda não exista definição de data, a organização adiantou que buscará parcerias com escolas e entidades culturais da cidade para consolidar a proposta.
Enquanto o calendário é revisto, a Orquestra Paranaibense de Flauta Doce retoma seus ensaios regulares, mantendo abertas as inscrições para novos integrantes. Já as formações Sopro Novo Paulista e Sopro Novo Carioca seguem agenda de apresentações em outros municípios, sempre com o objetivo de divulgar a flauta doce e fortalecer o ensino de música em território nacional.
O evento encerrou-se sem contratempos, deixando a expectativa de novas oportunidades para que a população de Paranaíba tenha contato com produções musicais de diferentes regiões do país. Para os organizadores, a noite confirmou que, mesmo em cidades de porte médio, a demanda por concertos didáticos e inclusivos permanece alta, sobretudo quando são oferecidos de forma gratuita e em espaços acessíveis à comunidade.









