A intensificação das tensões militares entre Estados Unidos e Irã abre uma frente de preocupação para o agronegócio brasileiro, em especial para as cadeias de milho e soja, responsáveis por parcela expressiva da balança comercial do país. Embora o mercado iraniano represente menos de 1% do total exportado pelo Brasil, a nação persa figura entre os principais compradores dessas duas commodities, o que torna o setor sensível a eventuais interrupções logísticas ou variações de preços provocadas pelo conflito.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que, em 2025, o intercâmbio bilateral somou aproximadamente US$ 3 bilhões. Desse montante, as exportações brasileiras responderam por US$ 2,9 bilhões, enquanto as importações do Irã alcançaram US$ 85 milhões. Milho e soja concentraram 87,2% das vendas do Brasil ao país asiático. Sozinho, o milho não moído representou 67,9% do valor exportado, movimentando mais de US$ 1,9 bilhão, ao passo que a soja correspondeu a 19,3%, equivalentes a cerca de US$ 563 milhões.
Especialistas observam dois canais principais de transmissão dos impactos da crise para o agronegócio brasileiro. O primeiro é o possível aumento dos preços internacionais de energia, já que uma escalada militar tende a pressionar o barril de petróleo. Como derivados de petróleo são insumos relevantes nos custos de produção agrícola — fertilizantes, defensivos e combustíveis para maquinário e transporte —, qualquer avanço nas cotações pode comprimir margens de produtores e encarecer fretes internos e internacionais.
O segundo canal refere-se à logística marítima. A região do Golfo Pérsico abriga rotas estratégicas para o escoamento de petróleo e para o tráfego de navios cargueiros. Restrições à navegação, bloqueios ou atrasos decorrentes de hostilidades podem criar gargalos no envio de grãos brasileiros ao Oriente Médio. Um cenário de incerteza prolongada também pode levar armadores a elevar prêmios de risco, encarecendo o transporte e reduzindo a competitividade dos produtos brasileiros.
Mesmo não figurando entre os destinos mais volumosos da pauta global, o Irã ocupa posição relevante no nicho agrícola. No ranking geral de compradores do Brasil, aparece na 31ª colocação, porém está entre os principais mercados de milho e aparece como o quinto maior destino no Oriente Médio, atrás de Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Arábia Saudita. Essa concentração torna a exposição do agronegócio maior do que sugere a fatia percentual das vendas totais.
No interior do país, estados fortemente dependentes da exportação de grãos acompanham o conflito com atenção. O Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores nacionais de milho e soja, ilustra essa realidade. Cooperativas, tradings e produtores locais dependem de contratos de fornecimento baseados em cotações internacionais para planejar áreas de plantio, definir prazos de colheita e negociar volumes. Alterações súbitas nos custos de energia ou na disponibilidade de navios podem interferir no cronograma de embarques e elevar despesas, exigindo ajustes rápidos nas estratégias de comercialização.
Consultores em comércio exterior recomendam a monitorização constante dos preços globais das commodities e a diversificação de mercados como forma de diluir riscos. A avaliação de rotas alternativas de transporte também ganha relevância caso bloqueios afetem o acesso ao Golfo Pérsico. Além do lado das exportações, existe preocupação com a importação de insumos: em 2025, o Brasil trouxe do Irã cerca de US$ 84 milhões em fertilizantes. Qualquer restrição a esse fluxo pode pressionar custos de produção e obrigar a busca de fornecedores em outras regiões.
Em um cenário de volatilidade crescente nos mercados de commodities, as empresas brasileiras avaliam mecanismos para proteger margens, como a fixação antecipada de preços, contratação de seguro de transporte e uso de derivativos para cobrir oscilações cambiais e de frete. A expectativa é que o conflito possa influenciar não apenas as vendas diretas ao Irã, mas também as cotações globais de milho e soja, que refletem movimentos de oferta, demanda e percepção de risco dos investidores.
Enquanto não há sinal de arrefecimento das hostilidades, o agronegócio brasileiro permanece atento às repercussões sobre custos de produção, disponibilidade de navios e comportamento dos compradores internacionais. A capacidade de reagir rapidamente a mudanças no ambiente geopolítico será determinante para preservar competitividade e participação de mercado no próximo ciclo de exportações.









